Ondjaki, escritor que venceu recentemente o Prémio José Saramago, esteve na Escola Secundária da Trofa, a 29 de novembro, a apresentar a obra infantil “Uma escuridão bonita”.

 

“É bom dividir uma escuridão com outra pessoa, em concha e aconchego, como se dois mundos, nessas gotas de negrume, fossem um só”. Este é um dos excertos do mais recente livro publicado por Ondjaki, escritor angolano que venceu, recentemente, a 8ª edição do Prémio José Saramago.

“Uma Escuridão Bonita” é o nome do conto infantil que relata a história de dois jovens que, numa das muitas noites em que falta a luz em Luanda, ensaiam o primeiro beijo. Antes de acontecer, o dito precisa de muitos ensaios e de momentos em que ora está perto, ora está longe. Para dar a conhecer a obra, o escritor esteve na Escola Secundária da Trofa onde, num ambiente descontraído e com apurado sentido de humor, conseguiu manter uma plateia jovem silenciosa e interessada.

Ondjaki esteve prestes a cancelar a apresentação na Trofa, por questões de saúde, mas acabou por marcar presença na escola. Afinal, este já foi um concelho que o acolheu – no Encontro Lusófono – e pelo qual “nutre um carinho especial”. “Tenho muitos amigos aqui e é um lugar que do ponto de vista da temperatura é frio, mas que do ponto de vista humano é muito caloroso”, contou em entrevista ao NT.

Ondjaki, um tanto ou quanto avesso a falar da sua obra, preferiu dirigir-se aos jovens com várias histórias – reais ou ficcionadas – de Luanda e da sua experiência cultural em Portugal e no Brasil, país onde vive atualmente. Questionado pelos alunos, o escritor explicou que a carreira começou um pouco depois de “sentir um ímpeto para escrever, em conto, uma ou outra história da família” e viu o primeiro livro publicado “dois anos e meio depois de telefonemas insistentes” para a editora, a Caminho.

Já sobre a experiência como escritor, explicou que “é uma experiência que tem altos e baixos” e “uma vivência pelo convívio da personagem e pela intensidade de cada uma”. “Passamos por momentos que são sofridos como qualquer outro artista”, explicou, dando o exemplo do romance “Os Transparentes”, que lhe valeu o Prémio José Saramago. Foi um parto difícil, porque “escrevia pior do que aquilo que tinha imaginado”. “Aprendi muito com a escrita do livro, custou-me, mas saio dessa experiência com outro tipo de maturidade”, explicou.

Ondjaki sente-se “mais à vontade no conto” e encara-o “como um desafio”, pois “é um género muito difícil”. Assume-se como um escritor com um lado autocrítico “muito forte”, mas mesmo que não goste das obras, mantêm-nas no mercado, porque encara-as como “uma assinatura no tempo” e prefere “deixar passar essa imperfeição estética”. “Também é um ato de amizade com os leitores”, acrescentou.

Para além da simpatia, Ondjaki distribuiu desenhos nos livros autografados, vincando um cunho pessoal que encantou os leitores.