Peregrinação a Fátima mais insegura

As novas dificuldades em circular nas estradas foram enunciadas por uma peregrina residente na Trofa. Maria da Conceição Dias referiu que por algumas ocasiões a caminhada é feita "com um pé na valeta".

  O alargamento das faixas de rodagem nas estradas revelou-se um revés para todos os peregrinos que nesta altura viajam até Fátima a pé. As bermas diminuíram com as obras, o que torna a circulação das pessoas mais insegura.

Esta situação foi alertada por uma voluntária que faz parte do Corpo de Voluntários da Ordem de Malta há 25 anos. Maria José Vilas Boas, presente no posto de atendimento aos peregrinos em Santa Luzia, Mealhada, revelou que, face às obras nas estradas, têm surgido mais lesões nas pessoas: "Os problemas nos músculos e nos tendões têm surgido mais. Antigamente havia algum espaço, mas com o alargamento das faixas de rodagem os peregrinos ou circulam pela via ou vão com um pé no asfalto e outro na valeta". Esta situação verifica-se face à construção de uma terceira faixa de rodagem que fez com que "grande parte do percurso o traço da berma seja em cima da valeta" e "diminui o espaço de segurança" para todos os peregrinos.

Maria José Vilas Boas afirmou ainda que, em 25 anos, nunca se confrontou com nenhum atropelamento como se verificou na madrugada de quarta-feira em Santa Maria da Feira, que causou ferimentos em nove peregrinos, apesar de se recordar de uma situação que colocou em perigo as pessoas que se encontravam num centro de acolhimento da Ordem de Malta em Condeixa-a-Nova, devido ao despiste de uma viatura.

Os problemas apresentados pelos peregrinos nos centros de atendimento também têm mudado de ano para ano: "Antigamente os peregrinos apareciam com muitos problemas de exaustão, muito mal calçados e mal alimentados. Hoje, o que se nota mais são problemas musculares e de tendões". Surgem problemas nas articulações do tornozelo, relacionadas com a irregularidade das bermas.

Nos centros, os voluntários aproveitam para auxiliar todos os crentes, com massagens nos pés, coxas e costas, e tratamentos às bolhas nos pés.

Durante a noite os peregrinos não dispensam o uso de coletes reflectores e lanternas que os auxiliam a sinalizar a sua presença e sempre que podem, circulam fora da via.

As novas dificuldades em circular nas estradas foram enunciadas por uma peregrina residente na Trofa. Maria da Conceição Dias referiu que por algumas ocasiões a caminhada é feita "com um pé na valeta".

A peregrina trofense, há quatro anos a fazer este percurso, integra um grupo de 19 pessoas que se concentraram no Porto para se fazer à estrada, com destino a Fátima, para o próximo domingo de manhã.

"Às vezes uma pessoa cansa-se mais, mas vai bem", confessou, uma opinião corroborada por outras companheiras de viagem, oriundas da Trofa e Maia, cujas mazelas não iam além de umas bolhas nos pés.

Maria da Conceição Azevedo, outra peregrina, faz este percurso pela segunda vez, e Fernanda Machado, é uma estreante, fazendo-se à estrada para cumprir uma promessa a pedir a Nossa Senhora de Fátima ajuda para uma doença do filho, a padecer de um problema renal.

Já residente em Ribeirão, concelho de Famalicão, Cristina Moura não descurava da boa disposição pela sua estreia na peregrinação, apesar de alguns problemas nos pés e nos tornozelos que a fez pedir auxílio aos voluntários da Ordem de Malta: "Não há nada fácil na vida. Isto é custoso para os pés, mas para a cabeça estou de férias", referiu a agricultora que enunciou a dificuldade da profissão e a situação de desemprego do marido.

Mãe de dois filhos, uma menina de 14 anos e um rapaz de 7, Cristina Moura sublinhou as saudades da família que por vezes surgem durante o caminho: "canta-se, reza-se e chora-se quando há mais cansaço e apertam as saudades do marido e dos filhos".

Cátia Veloso/Lusa