Vinte e três anos de futebol profissional. Uma história longa que ficará na memória de quem o viu jogar e servirá de exemplo para gerações vindouras na modalidade. Tiago disse adeus aos relvados. Vai ter saudade e vai deixar saudade.

No fim do jogo de domingo, já com as emoções extravasadas, Tiago confessou: “Tive dificuldades em dormir esta noite”. Afinal, além de a partida com o S. Martinho ser decisiva para as contas da manutenção, em caso de garantia do objetivo seria também a última vez que o capitão pisava os relvados. E assim foi. O Trofense venceu e Tiago disse adeus ao futebol.
Raça, humildade e inteligência são algumas das muitas qualidades invocadas por quem o viu da bancada e pelos que partilhavam com ele o balneário e as quatro linhas. É impressionante a sintonia, possível verificar nos últimos dias, manifestada por ex-colegas, mais novos e mais velhos, nas mensagens que o médio recebeu desde que anunciou a retirada.
O “ranhoso”, como os adversários o apelidavam, afinal era mais um elogio à capacidade que tinha de comandar o meio campo. Não tinha feitio fácil, que o diga Paulinho Santos, com quem andava sempre “pegado” dentro das quatro linhas. Mas quando partilharam o mesmo balneário, no Futebol Clube do Porto, tornaram-se amigos. Tiago era assim. No mesmo grupo, era o amplificador de vontades, um hino à raça e a força de qualquer emblema que envergasse.
Foi essa personalidade que o catapultou do Trofense, que militava na 2.ª Divisão B, para a 1.ª Liga, com 18 anos e ao serviço do Futebol Clube Famalicão. Foi no Estádio das Antas que deu início a uma carreira de mais de duas décadas, impossível passar despercebida. Marítimo, União de Leiria, Sport Lisboa e Benfica e Boavista foram os clubes por onde passou em Portugal, sem esquecer o Futebol Clube do Porto, onde, ao comando de José Mourinho, venceu os troféus mais importantes: Taça Uefa, dois Campeonatos Nacionais, uma Taça de Portugal e Supertaça.
Também andou pelos relvados de Espanha, ao serviço do Rayo Vallecano, onde ajudou a escrever uma das páginas gloriosas do clube, com um golo na segunda mão do play-off que lhe valeu a subida à 1.ª Liga. O Tenerife foi outro ponto de paragem do médio.
Em 2009 cumpriu o sonho e regressou ao clube que o viu nascer para o futebol. Ao serviço do Clube Desportivo Trofense colecionou alegrias e tristezas e, mesmo sem salários, deu tudo até para lá do cansaço.
A despedida, como devia ser, foi feita com uma vitória, resultado que interessava à equipa para a manutenção, mas também para dedicar àquele que muitos dizem ser um exemplo a seguir na modalidade.
O gigante deu o último pontapé e vai deixar saudades.

“Parabéns ao grupo de trabalho, incluindo à equipa técnica, que foi fantástica. Fomos uns campeões pela forma como ultrapassamos as adversidades do atual momento do clube. Foi uma temporada de luta, de suor, de ambição e com alma conseguimos o nosso objetivo. Depois de tudo o que passamos, a manutenção é mais do que merecida.
Hoje (domingo) foi um dia de emoções. Orgulho-me da carreira fantástica que fiz, dos 23 anos de futebol profissional, que é a minha vida, o meu mundo”.