Seria mesmo necessário?

Depois de reprovação na Assembleia da República do PEC IV, já de si muito gravoso e injusto, criou-se um clima de grave instabilidade política em Portugal com graves consequências económicas e financeiras.

Depois dessa reprovação, os mercados financeiros, que já especulavam sobre Portugal, até com exagero, passaram a especular com muito maior intensidade e as taxas de juro atingiram níveis a que já não estávamos habituados.

Os investidores não confiam em Portugal e não querem emprestar-nos dinheiro.

José Sócrates tem culpa? Sim. Muita culpa. É o único culpado? Não: muitos dos que agora lhe apontam o dedo incriminador têm muitas culpas do que nos está a acontecer.

Desde 1973, Portugal tem acumulado défices atrás de défices. Desde há muitos anos que o Estado está a engordar. Criou muitos serviços que ninguém sabe para que servem. Criou um conjunto incoerente de regras incompreensível.

As medidas anti-crise foram o clímax. A nossa dívida, já elevadíssima, disparou. Há quem afirme, e eu acredito, que duplicou nos últimos três anos. Isso não é suportável.

Alguns benefícios sociais, justíssimos, foram aplicados quase sem controlo e deixaram de ser sociais para serem para os espertos.

Tudo isto custa muito dinheiro aos contribuintes.

A carga fiscal já há muito que se tornou insuportável. Não tem por onde subir de forma razoável. Tudo o que vier acima ultrapassa os limites do absurdo.

Isto significa que os portugueses, que já estão mal, ficarão muito pior. É que as medidas irão muito além do que é suportável e muitas pessoas cumpridoras correm o risco de deixarem de poder cumprir os seus compromissos, principalmente os de longo prazo.

É deprimente que estejamos há dez anos em crise permanente.

Os portugueses, enquanto consumidores, também têm culpas e não há que escamotear. Deslumbrados, pelas novidades vindas de fora, passaram a preferir, de forma quase sistemática, os serviços e produtos importados. Passámos a exportar o dinheiro que agora nos falta.

Os produtores nacionais têm sempre uma dificuldade acrescida porque têm dificuldades em vender para o mercado nacional. Isto é: em vez de importarmos o que necessitamos, importamos o que necessitamos e o que não necessitamos.

As empresas nacionais, se querem vender em Portugal, precisam de exportar para que os portugueses passem a confiar nos seus produtos.

Agora, nem nacionais nem importados. O aperto do cinto vai ser violento e o dinheiro vai faltar nos bolsos dos portugueses. Alguns poderão passar pela pobreza envergonhada.

Depois disto, da reprovação do PEC IV, já de si muito duro, não creio que os portugueses queiram premiar que nos empurrou, ou deu o empurrão final, para os braços do FMI que tem regras de austeridade muito mais violentas que o PEC IV.

A reprovação do PEC IV não foi uma atitude tomada por patriotismo. Foi puro calculismo político, mas são os portugueses que irão pagar a factura.

Resta aos cidadãos aguentarem-se o melhor que lhes for possível, o que não é nada fácil. É que já não são apenas aqueles que eram considerados pobres que irão sofrer bastante.

Muitas famílias que sempre se considerou estarem em situação equilibrada, passarão a ter muitas dificuldades. E mesmo aqueles que têm rendimentos tidos por razoáveis, irão ter muitas dificuldades para cumprirem os seus compromissos.

Pode ser dramático, mas é o que nos espera.

Afonso Paixão

 

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