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O regresso à Escola

O regresso à Escola

Por meados do século passado, aos sete de Outubro de cada ano, rapazes e raparigas das aldeias (nas cidades seriam meninos e meninas), rumavam à escola da freguesia para “aprender a ler, escrever e contar.” Íamos aos magotes, quais bandos de passarinhos, alguns já “pardalões de bico amarelo”. Hoje, tanto nos regozijamos com as condições de que usufruem os nossos netos, quanto lamentamos as condições com que se defrontaram os nossos avós: aqueles, pelo conforto dos edifícios escolares e a comodidade da deslocação; estes, pela distância a que ficava a escola a que se dirigiam e pelas quelhas que tinham de palmilhar. Sacrifícios sem conta suportaram aqueles poucos rapazes que, em busca das primeiras letras, calcorrearam léguas de caminhos e carreiros de montes, rumo à escola de freguesia vizinha! Alvarelhos, São Mamede de Coronado e Santiago de Bougado já possuíam, em 1887, escola masculina. Nos alvores do século passado, das trinta e duas freguesias do concelho de Santo Tirso, em treze não existia nenhuma escola oficial e apenas sete freguesias tinham escolas para ambos os sexos.

Então, a taxa de analfabetismo em Portugal era superior a setenta e cinco por cento – com maior incidência nos meios rurais – e em 702 freguesias portuguesas não havia escola. Neste contexto, impõe-se-nos o dever de referir e reconhecer o mecenato dos beneméritos locais que, a expensas próprias, promoveram a construção de edifícios escolares, com salas de aulas e residências para os professores, nas suas “pequenas pátrias.” Dentre eles, destaque para os “brasileiros”, que havia em todo o Entre Douro e Minho. E assim à nossa porta: José de Moura Coutinho, pela construção da escola da freguesia de São Cristóvão do Muro, e Joaquim Franco Ferreira Lopes, pela construção da de Guidões.

Joaquim Franco Ferreira Lopes nasceu em Guidões no dia 25 de Abril de 1881. Filho de António Joaquim Ferreira, natural de São Cristóvão do Muro (nasceu no lugar de Quintão, em 28/08/1843) e de Ana Ramos da Silva Lopes, natural de Mindelo (nasceu no lugar de Outeiro, em 23/02/1850) e moradora em Guidões com sua tia Rosa Maria Antunes, casada com José Lopes da Silva, casal de cujos bens foi herdeira. O casamento de António Joaquim Ferreira e Ana Ramos da Silva Lopes realizou-se na Igreja Paroquial de Guidões, no dia 4 de Junho de 1878.

Joaquim foi o segundo dos oito filhos deste casal. Frequentou a escola primária de Santiago de Bougado. Quem conhece bem as bouças entre Guidões e Bougado, graças às jornadas venatórias, não será insensível às dificuldades que o Joaquim e outros mais rapazes enfrentaram no caminho da escola. Também não me custa a crer que, durante esse trajecto doloroso, o Joaquim tivesse um sonho: “se viesse a ser homem rico, pagaria para fazer uma escola em Guidões.”

Joaquim emigrou para o Brasil e enriqueceu com o negócio do açúcar. Grande exportador – dos maiores! – proporcionou-lhe fortuna avultada. Tornou possível a realização dos seus ideais filantrópicos. Destaco, no Brasil, a construção do Hospital Português, o melhor do Recife. Não podia esquecer Guidões, a sua terra e os seus conterrâneos. Deu-lhes uma estrada para Bougado e uma Escola. A Câmara Municipal de Santo Tirso aprovou, por duas vezes, um louvor e solicitou ao Ministro da Instrução a concessão da Ordem da Benemerência. E pagou trinta e quatro escudos à firma Minchim, Limitada, do Porto, para o fornecimento de “uma placa verde e letras brancas” para ser colocada na escola Joaquim Franco Ferreira Lopes, com os seguintes dizeres: “Este edifício foi custeado pelo benemérito desta freguesia Joaquim Franco Ferreira Lopes e Esposa, que o doaram generosamente ao Estado, bem como todo o mobiliário, em mil novecentos e vinte e sete.”

Os sobrinhos netos de Joaquim Franco Ferreira Lopes, considerando uma ingratidão que a Escola tivesse passado a ser designada pelo lugar em que se encontra (Cerro) e não pelo nome do doador e desconhecendo o paradeiro da placa evocativa, acolheram, com entusiasmo, as informações documentadas que, com gosto, lhes forneci. Por isso, empenharam-se pela reposição da justiça. O benemérito merece a honra, a família sente o dever e o povo de Guidões sente-se grato!

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