É um problema já velho que aconteceu nos anos noventa com o fecho da "Fábrica da Tripa 2 em Matosinhos.

 Naquela época, perante um problema grave de Matosinhos, a freguesia de Covelas, que tinha uma empresa de criação de frangos e tratamento dos respectivos resíduos, a Savinor, recebeu um negócio lucrativo que lhe permitiu, para além do tratamento dos resíduos de frango, tratar resíduos de peixe.

Não foi uma transferência clara e tudo indica que houve deslealdades.

Este tipo de indústrias faz falta ao país, mas não seria necessário que tivesse tantos inconvenientes ambientais. Existe em mais países e não causam tantos transtornos como aqueles que estamos a sofrer.

Existem tratamentos eficazes capazes de tratar os resíduos de peixe e frango de forma a que a população não tenha que sofrer os odores horríveis como aqueles que estamos a sofrer, principalmente as populações de Covelas, S. Romão do Coronado e Trofa.

Os odores chegam cada vez mais longe e não tarda que empestem Maia e Santo Tirso.

Que a indústria seja lucrativa, não me choca. Afinal, quem trabalha com recuperação de resíduos, deve ter as suas compensações e eu desejo que, quem se dedica a essas actividades ganhe muito dinheiro.

O maior dos problemas é que alguns empresários (será que devo designá-los assim?) não se contentam em ganhar muito dinheiro: querem ganhá-lo todo. Então, fazem um raciocínio fácil e linear: poupam nos tratamentos, que custam dinheiro, e aumentam os seus lucros.

O cheiro não constitui problema porque eles, os ditos empresários, não vivem lá.

Quem lá vive, que se amanhe, pensarão aqueles que não manifestam vontade de solucionar o problema. E recorreram a uma velha técnica de dar empregos a populações locais que, assim, ficam condicionados na sua capacidade de protesto, bem como as respectivas famílias.

E lá ficamos nós a pensar nos postos de trabalho criados e esquecemos, com frequência, o verdadeiro problema. A fábrica poderia funcionar sem causar tantos transtornos, desde que existisse vontade. E, desde que houvesse vontade de ganhar muito dinheiro e não a vontade de ganhá-lo todo, poupando no tratamento.

Entretanto, vai-se falando em mais dificuldades. Parece que agora a empresa se tem defendido com a falta de legislação para os odores. De problema em problema, de dificuldade em dificuldade, a fábrica vai continuando a funcionar, vai continuando a infernizar a vida das pessoas e o empresário (?) continua a ganhar muito dinheiro para além do lucro razoável que toda a actividade deve proporcionar.

Agora surge mais outro episódio: apesar de estar devidamente autorizada a funcionar com uma nova unidade, a empresa não o faz.

Segundo notícia publicada no Jornal de Notícias, do último fim-de-semana, a CCDRN afirma que "a exigência de avaliação ambiental da nova linha de processamento da Savinor, na Trofa, não impede a fábrica de laborar nessa unidade, a qual permitirá diminuir os odores e com os quais toda a vizinhança se dá mal".

Um comunicado da CCDRN desmente que a exigência de avaliação impeça o funcionamento da nova linha de processamento, a qual permitirá, como reconhece um administrador da empresa, um muito melhor desempenho ambiental, além de reduzir os cheiros.

Entretanto, as populações vizinhas da fábrica, e não só, vão sofrendo a bom sofrer.

 

 

 

Afonso Paixão