Recém-chegado do calor solidário e fraterno da festa da alegria, uma proeza dos comunistas bracarenses e minhotos, que decorreu no último fim-de-semana, estranhei o facto de na segunda-feira seguinte não ter assistido na televisão ou lido em jornais qualquer notícia referente àquele evento político-cultural, concretamente no JN que, mudo e quedo, também nada refere. Sobretudo tendo em conta o magnifico comício com Jerónimo de Sousa onde, pelas 18h de domingo, desmontou e desmistificou perante plateia cheia e interessada, de forma clara e perfeita, esta politica de direita levada a cabo pelo PS. Estranhei. Mas de facto, não estranho. Subalternizados ao poder financeiro e ao governo, não dá jeito aos média e ao JN dar a devida cobertura a uma iniciativa como a festa da alegria, onde se ruma contra a maré, se apresentam outras soluções, outros caminhos, aonde reside a verdadeira alternativa política. Incomoda. E por isso, ou se noticia pouco ou, como fez o JN, nada.

   Neste espaço jornalístico que gentilmente me cederam tento sempre duas coisas que provavelmente nem sempre conseguirei concretizar. Ser verdadeiro, transmitindo o que penso e resulta das minhas reflexões e ser objectivo.

Uma das coisas que mais me seduz neste PCP é o seu rejuvenescimento. Não no sentido de ver a malta nova a participar activamente no comício e nas outras iniciativas, mas de a ver à frente das direcções e organizações do PCP. Olhar para a Assembleia da República e desde logo encontrar como presidente do grupo parlamentar, e já há muito tempo, um jovem como Bernardino Soares, reparar em outro jovem como o deputado do nosso círculo eleitoral do Porto – Jorge Machado. Enxergo a Direcção Regional do Porto do PCP por exemplo e vejo gente nova, responsável, com formação política e ideológica, a definir a linha, a estabelecer o rumo, a assumir o comando, com ideias claras, com objectivos concretos. Para mim, que sou algo mais velho, é um orgulho, uma honra, trabalhar sob a orientação de moços e moças, que sabem para onde vão e por onde vão, como é o caso dos meus camaradas Jaime Toga e Paulo Queirós. Por isso o PCP continuará bem entregue. Foi passado o testemunho. É partido de futuro, sempre ligado aos trabalhadores, aos jovens, mulheres, estudantes, reformados, agricultores, pescadores, intelectuais, pequenos e médios empresários, na luta pela transformação da sociedade na construção da sociedade socialista.

Esta festa da Alegria é um espaço de luta, confraternização, exposição e alento. Visceralmente estou a ela ligado. Após o 25 de Abril, também integrei um grupo musical de nome "Vanguarda". Daqueles que graciosamente e militantemente corriam o país ao serviço de uma colectividade, de um sindicato, de uma cooperativa, na alfabetização, na reforma agrária, numa iniciativa politica. Ao ar livre, em sala, num celeiro ou no atrelado do tractor, montava-se o palco. O pagamento era o ânimo que se trocava, a confiança que se estabelecia, a vontade férrea da transformação, a felicidade expressa na luta pela tarefa sempre inconcluída de se criar um mundo melhor. Quando muito, às vezes, um chouriço assado e um caldo verde. O"Vanguarda" esteve na primeira festa da alegria e, durante meia hora, tocou e cantou. Como esteve, também graciosamente, no parque da Senhora das Dores em um dos aniversários da única cooperativa de consumo que então existia na Trofa. Musicalmente poderia não ser grande coisa. Mas os textos tinham sentido, continham mensagem, analisavam a realidade, explicavam como o trabalhador que lê estas palavras, produz 50 e só ganha 5. Do tipo daquela letra do meu bom e velho Godinho que dizia : « Vi-te a trabalhar o dia inteiro / construir as cidades pr`ós outros / carregar pedras, desperdiçar / muita força pra pouco dinheiro». A palavra de que tudo o que existe é resultado da força da produção dos trabalhadores. Mas essa força é explorada, apropriada e não sendo a riqueza produzida devidamente distribuída, surgem as grandes desigualdades. Daí a conclusão da letra :« que força é essa / que trazes nos braços / que só te serve para obedecer / que só te manda obedecer / que força é essa, amigo / que te põe de bem com outros / e de mal contigo / Que força é essa, amigo.»

Na festa da Alegria em Braga, este ano, voltei a sentir esse calor, essa determinação. No abraço ao velho mineiro de Aljustrel e à antiga operária da Grundig, na cumplicidade militante dos meus camaradas trofenses, na recordação das lutas com os meus camaradas de Santo Tirso, no caloroso aperto de mãos a Jerónimo de Sousa, senti a mesma vontade indomável de ultrapassar as vagas do conformismo, de prosseguir corajosamente a luta de massas e de contribuir decididamente para o reforço do PCP. A minha mensagem não é descomprometida. Eu tomo partido. Disso dependerá ter ou não melhor e mais saúde amanhã, mais e melhor educação, mais ou menos emprego, melhores ou piores salários e pensões. O amigo leitor que, pacientemente lê estas linhas, sabe que tenho um objectivo. Contribuir humildemente para a mudança: a edificação de uma sociedade sem exploradores e sem explorados. E para ti, camarada trabalhador, para quem são estas linhas, a quem trato por tu, porque não tenho forma mais calorosa, humana e educada de tratar, digo-te que insistir no mesmo PS, PSD ou CDS, é ter mais do mesmo, sempre a apertar o cinto. E, como na velha canção sempre jovem, « não me digas que não me compr`endes / quando os dias se tornam azedos / não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos / e uma raiva a nascer-te nos dentes / não me digas que não me compr`endes».

Não me digas que não me compr`endes.

Atanagildo Lobo.