A região Norte tão próspera num passado recente, era a região que mais contribuía para as exportações e para a riqueza do País, está cada vez mais a definhar, com o beneplácito e o “empurrão” de Lisboa, que desvia constantemente fundos de outras regiões, para o seu próprio progresso, sem ter em conta o desenvolvimento harmonioso do País. Assim se desenvolve uma capital cada vez mais centralista e macrocéfala.

No espaço de pouco mais que uma década, a região Norte perdeu o “comboio” da União Europeia e ficou mais pobre, mas mesmo assim, Bruxelas continua a autorizar o desvio de verbas das regiões mais pobres para Lisboa. Mais: a larga maioria do dinheiro dos fundos comunitários não sai da capital. O resto do País pouco recebe. O argumento que o poder político, instalado na capital, utiliza para justificar os permanentes desvios de verbas avultadas para Lisboa é de que «o que é bom para Lisboa é bom para o Estado», como que se o que fosse bom para as outras regiões não fosse também bom para o próprio Estado. Ou seja: até parece que o Estado é só Lisboa. Não é; Portugal é todo o País; o Estado somos todos nós!

São tantas as discrepâncias existentes entre Lisboa e o resto do País. Atente-se só a algumas:

Na tabela dos Concelhos com menor poder de compra per capita em Portugal, dezasseis estão situados na região Norte, cujo poder de compra é de 86% da média portuguesa. No topo, Lisboa mantém o pódio; está em primeiro lugar com 137% da média nacional. A hegemonia do sul é ainda verificável pelas pontuações dos municípios da área metropolitana de Lisboa: Oeiras, Cascais, Alcochete, Montijo e Almada;

– No tocante ao desemprego são os Concelhos da região Norte do País, a manterem taxas acima da média nacional, e a continuar a crescer desmesuradamente. Metade dos jovens sem trabalho e metade dos desempregados de longa duração, são da região Norte. No que toca aos salários, em Lisboa são muito bem pagos, bastante acima dos valores pagos, para a mesma função, na região Norte. A precariedade no emprego, contratos a prazo e recibos verdes, é muito mais acentuada na região Norte. A maioria das empresas que declararam falência no último ano, estavam sediadas na região Norte;

– O metro do Porto recebeu do estado, na última década, cinco vezes menos do que as verbas atribuídas ao metro de Lisboa. A segunda fase de expansão da rede portuense, que serviria 200 mil pessoas, está na gaveta há mais de um ano e o prolongamento da linha da Trofa, entre o ISMAI e a Trofa, está quase há uma década «encalhado» nas decisões políticas de Lisboa;

– Da verba total do Serviço nacional de Saúde (SNS) distribuída, nos últimos anos, a região Norte tem recebido cerca de 34%, apesar de o Norte abranger 37% da população do continente. O Ministério da Saúde paga menos por cada utente na região Norte, pois cada utente da saúde custa mais 37% a Sul do que a Norte. O financiamento da Administração Regional de Saúde do Norte (ARSNorte) está há vários anos abaixo da média nacional.

Apesar das devoções e das sapiências, dos cultos e das apreciações, das exegeses e das ilusões, o centralismo macrocéfalo lisboeta continua a vigorar e a falta de voz legitimada pelo voto e consensual na região Norte, é também culpada pela falta de equidade e coesão nacional. É a triste realidade e não qualquer tipo de «guerra» Norte/Sul. Passam os anos e o discurso mantém-se: a região Norte perde riqueza, perde voz e perde peso político. E, com isso, muito perde Portugal!

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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