O murro de Scolari, a carreira de Mourinho e a nossa educação andam lado a lado. Subindo as duas primeiras, baixa a última e vice-versa.

«O murro do Scolari foi bem dado, foi merecido…», disse um. «…Então não somos um País civilizado», disse outro, «aquilo não deveria ter acontecido». «O importante é ganhar, é chamar o Mourinho, que é o melhor…», vem um terceiro. «Se até a sua chegada é eficaz para a retirada de um político que já foi primeiro-ministro do estúdio televisivo…, é mesmo do Mourinho que precisamos», acrescenta um quarto…

É assim. É este o País que " o poder " pretende para os portugueses. E enquanto nos entretêm com estes episódios rocambolescos e " queirozianos ", o País real, aquele que de facto existe, vai pior. Por exemplo no ensino e na educação, o Estado também promove desigualdades e desequilíbrios, cria precariedades e, por conseguinte alarga substancialmente o lote daqueles que « vão mal » no nosso Portugal.

Neste País de fadas onde as grandes preocupações nacionais, passam pelo murro do Scolari e pela carreira do Mourinho, existem 35 mil professores desempregados e, em resultado da actual política, há mais 10 mil docentes no desemprego do que no ano passado. Neste País de (des)informação, onde tudo se sabe e em que a preocupação nacional é o caso McCanne, com horas, dias, meses de isto… e daquilo… sobre o caso, 40 000 crianças deixaram de ter apoio especial, devido a alteração dos critérios de avaliação de necessidades educativas especiais e cerca de 4 000 professores de educação especial foram para o desemprego. Neste País, onde se acha natural o encerramento de milhares de empresas e a existência de terras por cultivar, segundo as estatísticas, uma família com um filho a estudar gasta, em média, 600 euros por ano em educação, exceptuando os impostos. Nesta País «maravilha», em que até crédito bancário há para gozar férias, o governo encerrou mais 500 escolas do 1.º Ciclo no ano lectivo passado, existindo mais de 2 mil as escolas fechadas desde que tomou posse. Neste País de cartões, de telemóveis, de computadores, de hipermercados, onde " nada " falta, só 26 % dos portugueses com idades compreendidas entre 25 e 64 anos concluíram o Ensino Secundário, e 46% dos portugueses abandonam a escola antes de concluírem o 12.º ano. Neste País, onde se acha natural e normal a existência de quotas… não se podendo produzir mais de quantas toneladas tomate, de trigo, de tantos litros de leite, etc… conhecendo-se as carências dramáticas de alimentos em tantos pontos do mundo e mesmo em Portugal e Europa, o governo concedeu apoios de 26 milhões de euros, no segundo semestre do ano passado, aos dez colégios privados mais financiados, ao mesmo tempo que reduz o investimento público na Educação e sobrecarrega as famílias com encargos com o ensino dos filhos.

Esta política existe porque se insere no ataque deliberado e cirúrgico ao princípio da " escola pública ", que representa o compromisso social pela formação como o esteio fundamental da Educação e Ensino no nosso País. É uma política de direita que visa a desresponsabilização do Estado, o financiamento público de instituições de ensino privado e a submissão dos critérios pedagógicos aos mandamentos elitistas e economicistas.

Ao contrário, uma política de esquerda, apostaria fortemente na "escola pública" como instrumento e meio para o desenvolvimento económico e social do País, para a melhoria do nível de vida dos trabalhadores e da população em geral, para a elevação do nível médio da escolaridade dos portugueses, para a formação de quadros médios e superiores de qualidade, como forma de superação de atrasos e debilidades na estrutura produtiva e nas próprias vivências social e cultural.

Obviamente que quem manda ( em termos políticos ) e, no fundo, obedece aos ditames de poderosos interesses económicos e financeiros instalados, prefere as outras preocupações…e, consequentemente… o murro do Scolari, a carreira do Mourinho, etc…continuam a constituir as grandes noticias de Portugal.

 

Guidões, 30 de Setembro de 2007.

 

Atanagildo Lobo.