Dois mil e doze foi escolhido como o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre as Gerações. Ao longo do ano, o NT vai dar a conhecer histórias de pessoas que mantêm um dia a dia dinâmico, mesmo
numa idade mais avançada. 

António Moreira é um dos melhores exemplos de que “parar é morrer”. De café em café, António Moreira lá passeava a sua fatiota com um misto de cores que chamavam a atenção. Intitulava-se um “quatro em um”: Pai Natal dos Ricos, Ceguinho da Europa, Palhaço da Troika e Carrasco dos Pobres. Esta personagem, com múltiplas personalidades, combina com o mentor que, na Trofa, é conhecido por ser o “homem dos sete ofícios”. Prestes a completar 63 anos, António Moreira viu a sua criatividade ser premiada no Entrudo, em pleno Concurso de Mascarados, em S. Martinho de Bougado.

Mas desengane-se quem pensa que a aparição só é feita no Carnaval. Durante todo o ano, multiplicam-se as atividades deste homem, que é apologista de que “parar é morrer”. 

Depois de uma infância difícil, que mesmo assim não lhe retira o sorriso dos lábios, António Moreira escreveu a sua história, trabalhando e constituindo família. A Trofa serviu de “meio-termo” quando casou há 37 anos, por ser ponto intermédio entre a sua casa e a da esposa. Natural de Rio Tinto, António já se sente trofense e é neste concelho que dá outro significado à palavra reformado: “Não achas que, se uma pessoa depois da reforma estiver sentada a ver passar os carros, não morrerá mais depressa?”, questionava-me, enquanto retirava de uma sacola os “testemunhos” da vida dinâmica que leva em forma de DVD, CD e até um livro onde escreveu as suas “tolices”.

Durante a entrevista deu para perceber que, na memória, António Moreira guarda um sem número de participações nas mais diversas áreas, como teatro, cinema, voluntariado e música, e continua a enriquecer o “currículo”.

Durante os 20 anos em que foi vendedor, saía de casa à segunda-feira e regressava à sexta. Ao fim de semana aproveitava para fazer teatro de revista e alimentou esta paixão durante quase 15 anos. “Fui ator, encenador e também escrevi teatro”, contou. No início deste ano, chefiou uma pequena peça na Santa Casa da Misericórdia com os utentes desta instituição sobre a lendária história da Sopa de Pedra. “Quando vou a algum centro comunitário, sei que as pessoas dão muito valor quando se vai cantar ou fazer alguma brincadeira. Para eles é muito importante, porque lhes alegra”, afirma. 

Nos três anos que leva como reformado, António Moreira já colaborou com “sete associações” e tem “um gosto especial” em trabalhar com idosos. É voluntário na Associação de Solidariedade e Acção Social, na Muro de Abrigo, elemento no Rancho Etnográfico de Santiago de Bougado”, entre outros. Mas também gosta de trabalhar junto das crianças. Durante o mês de dezembro de 2011 espalhou a magia do Natal, ao encarnar o “homem das barbas brancas” nalgumas escolas do concelho. “As crianças são mais frontais. Uma vez, um miúdo perguntou-me ‘Pai Natal, posso levar-te para casa durante duas semanas? Assim não aturava nem o meu pai nem a minha mãe”, recordou.

Uma das atividades recentes que o marcou foi na APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) da Trofa: “É muito gratificante ver aqueles meninos tão contentes”, desabafa. É um dos alunos da nova Universidade Sénior do Rotary Clube da Trofa, onde está inscrito nas disciplinas de Teatro e Pintura, mas nesta, António Moreira reconhece não ter arte nem engenho. Mas, este homem só se sente preenchido se estiver ocupado: “À segunda-feira estou na Universidade, à terça estou na Muro de Abrigo, à quarta estou pela Cruz Vermelha, porque a minha esposa ajuda a dar comida aos carenciados, à quinta vou para a pintura…enfim, eu tenho necessidade de estar ligado a qualquer coisa”.

Todas as iniciativas que faz é por gosto e não para ser recompensado. Nunca aceita “dinheiro” em troca das suas participações. Para além de ter sido campeão concelhio de boccia, e de ter contribuído para levar o concelho aos quartos-de-final do campeonato nacional, António Moreira também participa na iniciativa da autarquia “Vou ao café… ouvir poesia”, na qual declama poemas da sua autoria. Alguns estão reunidos num livro que ele próprio imprimiu, porque “publicá-lo é caro”. 

Na extinta TDM (Televisão de Entre Douro e Minho), um canal “pirata”, António Moreira apresentava um programa para crianças, onde organizava jogos para os mais pequenos, ao sábado à tarde. Ainda hoje, guarda gravações desse tempo, em que pode ver a filha quando era mais nova. Também fez cinema, onde filmou em Viana do Castelo, na estação de Barroselas, uma curtametragem baseada na época salazarista.

Hoje, ambiciona fazer um filme sobre algumas lendas da Trofa. António Moreira promete não parar enquanto a vida o permitir, pois com quase 63 anos ainda se sente um “jovem de espírito”. Ninguém duvida. 

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