Um novo Estado nasceu (?). O Kosovo, província sérvia, declarou, unilateralmente, a sua independência face à Sérvia no passado dia 17 de Fevereiro. Países europeus como Itália, Reino Unido, França e Alemanha apressaram-se a reconhecer a independência kosovar. Porém, nos Balcãs, nada de novo. Este era um desfecho previsível e um passo que se anunciava há longo tempo. Hashim Thaçi já havia ensaiado, internamente, aquelas palavras dirigidas, domingo, à Comunidade Internacional.  

 Do lado de lá do Atlântico, o maior aliado do Kosovo, rejubilou. Os Estados Unidos da América, na pessoa do seu presidente em final de mandato, comprometeram-se. Não obstante, será este um motivo de regozijo? Talvez não. Ou melhor: definitivamente, não. Pelo menos, a curto prazo. 

A questão é intrincada. O Kosovo foi o berço da Sérvia, e constitui ainda hoje um símbolo para a identidade sérvia, a qual remonta mesmo à Idade Média. Contudo, e sobretudo no último século, a região, de fronteira com a Albânia, tornou-se predominantemente influenciada por este país – e não só no que toca à religião. Presentemente, cerca de 90% dos kosovares são muçulmanos (e são conhecidos como kosovares-albaneses), ao passo que restam apenas pequenas bolsas de kosovares-sérvios distribuídos na província, com especial incidência no Norte, não chegando estes, sequer, aos 10% da população. 

Já há quem admita que este novo Estado é um nado-morto. Será um Estado fraco, dependente de ajuda externa. E pobre (cerca de 40% da população vive no desemprego), à semelhança do Estado-irmão, a Albânia (também ele com uma população esmagadoramente muçulmana). E neste momento, do que a Europa (leia-se, União Europeia) menos necessita, é de um peso-morto às costas. 

A sociedade kosovar sofre de graves problemas endémicos: corrupção, falta de sentido de legalidade, impunidade de máfias ligadas ao tráfico de droga, armas e de seres humanos, todas elas severas, organizadas, e, o mais preocupante, próximas do poder. Se a isso acrescentarmos o facto de ser um Estado pobre, atrito a radicalizações ou extremismos de cariz religioso, o resultado só poderá ser um: um novo foco de terrorismo. Aliás, os serviços de inteligência dos Estados Unidos da América, de Israel e de alguns Estados europeus já lograram discernir pontos de ligação entre estas máfias (especialmente, o Exército de Libertação do Kosovo) e a própria Al-Qaeda, sendo o mais importante dos quais o treino de alguns dos seus proeminentes membros nos campos de treino da organização terrorista. 

Do lado dos sérvios, sabe-se, não vão ficar de braços cruzados. Apesar de comummente aceite que esta declaração é o culminar de uma auto-determinação necessária ao povo kosovar (que foi, em certos períodos da História, oprimido), é seguro prognosticar uma onda de violência na região, ela que estava num sono latente. A par do nacionalismo sérvio, a solidariedade eslava que se faz sentir sobretudo na Rússia poderá constituir o acender do rastilho necessário.  

As peças estão colocadas no xadrez. Talvez esta seja, perante o Mundo, a desculpa necessária à Rússia para poder reprimir com eficácia (isto é, aniquilando, exterminando) os focos de intenções separatistas em regiões sob a sua influência directa (como, a título de exemplo, na região da Abkhazia, na Geórgia). Mas é certamente um motivo de grande preocupação para Estados europeus que já declararam não reconhecer a independência do Kosovo, como sejam os casos da Espanha, Roménia, Bulgária, Grécia, Chipre e Eslováquia, todos com a angústia de enfrentarem o mesmo tipo de problema nos seus territórios. Para "nuestros hermanos", o nacionalismo basco, e, essencialmente, o catalão, apertam o cerco à unidade do Estado. De um lado, o terrorismo, do outro, o constrangimento económico. E estes ares de leste, em nada ajudam, sobretudo a um governo que se prepara para morrer com os mesmos ferros com que matou nas últimas eleições legislativas espanholas…

Helder Reis