O Plano Tecnológico da Educação, aprovado pelo actual Governo, tem sido bastas vezes utilizado como bandeira do executivo, no sentido de se afirmar um compromisso pela qualificação académica dos portugueses. Os factos são conhecidos: o Ministério da Educação prevê investir 1,4 milhões de Euros na aquisição de equipamentos informáticos para as escolas. De resto, alguns parceiros privados da área das telecomunicações têm mesmo oferecido computadores portáteis a preços simbólicos, em troca da promoção dos seus produtos (acesso à Internet).

   Para além disso, o Programa Novas Oportunidades ofereceu a muitos portugueses uma hipótese dificilmente de desdenhar, permitindo a qualificação de quem aprendeu os seus misteres fazendo, e não nos bancos da escola.

Mas… e quanto ao conhecimento de excelência? O senhor Primeiro-Ministro disse-nos, não faz muito tempo, que era intenção do Governo desenvolver as condições de trabalho para a existência de cada vez mais investigadores portugueses nas mais diversas áreas do conhecimento, e ainda ser capaz de atrair investigadores estrangeiros. Esta vontade, na verdade, vai de encontro às políticas que têm vindo a ser desenvolvidas no seio da União Europeia, muito por força de representarem verdadeiras mais-valias no plano económico. É comummente sabido que a Investigação, Desenvolvimento e inovação (I+D+i) representa, no seu conjunto, uma parte cada vez mais assinalável de investimento anual das empresas consideradas "top players" do mercado europeu, e até mesmo mundial.

A comprová-lo, no passado mês de Setembro, o Governo espanhol aprovou um programa de 48 mil milhões de Euros em Investigação, Desenvolvimento e inovação. A ideia, segundo a Vice-Primeira-Ministra espanhola, é melhorar a competitividade empresarial do país, "gerando o seu próprio conhecimento".

Entre nós, estas questões enviesam-se por outros caminhos. Apesar de toda a pompa e circunstância no anunciar de programas nesta matéria, a realidade assoma-se bem distinta do país cor-de-rosa, pintado a pinceladas largas pelo Governo e em especial pelo Senhor Primeiro-Ministro na televisão. A investigação, em Portugal, salvas honrosas excepções (que também as há, com a graça de Deus), não está correctamente vocacionada. Podemos mesmo afirmar que se perde em si própria, porquanto é um fim em si mesma. Tem, hoje, como única utilidade o estabelecer de um percurso académico para quem investiga, na esperança de se alcançar um lugar numa classe que gravita em torno das Faculdades, e extremamente fechada.

Um português que pretenda gerar mais-valia em termos de conhecimento, e dirigir a sua investigação para a identificação e resolução de problemas quotidianos e reais das empresas, encontra portas cerradas: a título de exemplo, no Norte do país, pese embora o considerável número de Universidades já existentes, não apresenta um único programa de Doutoramento em áreas chave ligadas ao mundo empresarial; os Professores não têm disponibilidade para serem tutores dos alunos; os Doutoramentos que existem apresentam valores incomportáveis; e o auxílio económico aos estudantes anda perto da nulidade.

Como se referia atrás, basta cruzar a fronteira para se ter outra realidade: os Doutoramentos são leccionados por um misto de professores universitários, dirigentes da Administração Pública e gestores e outros profissionais ligados às empresas; todas as Universidades Públicas procuram oferecer uma panóplia de Cursos de Doutoramento, ligados às mais diversas áreas do saber; os professores têm disponibilidade para serem tutores dos alunos, pois não vivem, no seio do meio académico, em redomas de vidro; os Cursos são co-financiados pelo Governo; e todos os alunos que solicitem uma bolsa de estudo, fazem-no de uma forma simples e compreensível, recebendo uma resposta e o devido apoio em prazo bastante expedito. Até mesmo os alunos portugueses…

Porque, como disse De la Veja, a Vice-Primeira-Ministra espanhola, o que importa é que " a Espanha gere o seu próprio conhecimento e seja eficaz na sua transferência para a sociedade". E não são apenas palavras sem conteúdo que ficam registadas, como acontece entre nós: em Espanha (e no resto da Europa), são, outrossim, os actos que as concretizam…