Depois da confirmação da descida de divisão da equipa sénior à 2ª Divisão Nacional, Mário Moreira falou ao NT do que correu mal na época. Presidente do clube lamentou a total falta de apoio das empresas do concelho.

“O CAT não acabou”. Esta foi a frase mais repetida por Mário Moreira, presidente do Clube Académico da Trofa (CAT), no balanço que fez da época do clube, em entrevista ao NT. O responsável máximo pelo emblema que está ligado ao voleibol reconheceu que foram cometidos muitos erros e aponta como principal fator do insucesso da temporada a falta de apoio dos patrocinadores.

“Mesmo com uma redução do orçamento para um terço, levamos nega de todas as empresas do concelho e fora dele”, explicou o presidente, que se manifestou entristecido pelo repentino desinteresse das empresas da Trofa pelo clube. Apesar da descida de divisão da formação sénior à 2ª Divisão Nacional e da falta de estrutura diretiva e técnica, Mário Moreira garante que o CAT não acabou e que a próxima assembleia com os elementos da direção e fundadores do clube, que se realiza este mês, mas ainda sem data definida, pretende servir de botija de oxigénio para recuperar a instituição: “Estamos a trabalhar para que tudo dê certo. Vai ser convocada uma assembleia no sentido de chamar à razão as pessoas envolvidas no projeto CAT”.

Mário Moreira confirmou que o futuro do clube está “dependente” dessa reunião, já que “o CAT tem que ser um clube gerido de forma profissional e não ser levado apenas por três pessoas”. A conversa com os diretores já “aconteceu” no ano passado, mas Mário Moreira garante que “este ano as coisas serão feitas de forma diferente”. “Desta vez vamos responsabilizar as pessoas. As que disseram que vão dar ou vão conseguir arranjar, terão uma data para cumprir. Não podemos chegar à situação desta época, em que não deu para todos. Precisamos de definir um orçamento e à partida tê-lo”.

Recorde-se que os problemas financeiros do clube começaram ainda na temporada passada, quando jogadores, treinadores e presidente da direção convocaram uma conferência de imprensa com vista a sensibilizar potenciais patrocinadores. Na altura, o CAT ainda lutava pelo título, acabando por arrecadar o 2º lugar. Assim como uma “bola de neve”, os constrangimentos transitaram para esta época, agravando as condições da equipa que se foi desorganizado com o desenrolar do campeonato, terminando com uma realidade atípica para o clube: a descida à 2ª Divisão Nacional.

Época desportiva foi má

Também do ponto de vista desportivo “correu tudo mal”, afirmou Mário Moreira. A par do elevado número de lesões e algumas más opções estratégicas, foi na parte desportiva que os problemas financeiros surgiram: “Todos os patrocinadores cortaram. Houve empresas de renome que nos negaram cem euros. Na parte desportiva, obviamente, falhamos. Tínhamos quase zero de receitas e as despesas eram suportadas por alguns diretores, por algumas verbas que se conseguiam, por quota dos sócios, por algumas mensalidades que alguns atletas pagaram, porque, infelizmente, muitos dos atletas jovens nem uma mensalidade pagaram, mas obviamente compreendemos isso, porque a crise afeta a todos”.

Para Mário Moreira, “a imagem desportiva do CAT por si só não chega para ser vendida”, lembrando que “há duas épocas que a equipa joga sem um patrocinador oficial nos equipamentos e não é por falta de grandes empresas na Trofa”. O presidente do CAT afirmou que o clube ainda tem “alguns valores em atraso” para resolver com atletas do clube, inclusive algumas que estiveram na época passada. “Fomos talvez o primeiro clube, da 1ª Divisão, a pagar o mês de setembro e de outubro. Depois as coisas complicaram-se. Quase todos os clubes devem e em voleibol ainda é mais notório. Na 1ª divisão, à exceção de dois clubes, todos os outros devem dois, três ou quatro meses”, frisou.

Do ponto de vista fiscal, o CAT “tem as responsabilidades integralmente cumpridas”, salvaguardou. Por acreditar que a crise nos clubes “é generalizada”, Mário Moreira salienta que o CAT “não é um projeto falhado, mas um projeto de sucesso, que como todos tem altos e baixos”. “Enquanto o Ribeirense (bicampeão nacional) tiver o apoio forte do Governo Regional, terá uma boa equipa, certamente. Deixando de ter, vai acontecer-lhe o mesmo que o Sports Madeira e até a possibilidade de extinção”, afiançou.  

“Eu sabia que o Manuel Barbosa nunca iria abandonar”

Ao longo da época, com a falta de apoios e muitos problemas para resolver com lesões e poucas opções no plantel, o treinador Manuel Barbosa levantou a voz por algumas vezes, para ameaçar que no caso de os problemas financeiros não serem resolvidos, a equipa deixava de jogar. No entanto, a tendência de crise manteve-se e Manuel Barbosa aguentou-se até à última jornada (registando-se apenas uma falta de comparência a um jogo nos Açores com o Ribeirense).

Mário Moreira garante que “sabia que o treinador nunca abandonaria o CAT”, por “o conhecer há muitos anos e saber o seu feitio, personalidade e a categoria que ele tem”. “Mas, também temos que ser realistas. O CAT não é o Manuel Barbosa, apesar de ele representar muito do que o CAT conquistou. Ainda ninguém me ouviu dizer que ele não é o técnico para o ano, mas digo agora que ele deve seguir a vida dele, pois sei que tem bons convites. Será eternamente a pessoa ligada ao grande sucesso do CAT. O CAT deve-se ao Manuel Barbosa. Mas, também não poderíamos estar tão limitados que se o treinador dissesse que saia que o clube caia a seguir. O clube já está a cair antes dele sair. Agora uma coisa é certa e aí sim, falo um pouco do futuro: o Manuel Barbosa só continuará cá como eu só continuarei cá, se o clube inverter este ciclo”, frisou.

Presidente acredita numa solução

Apesar de “fazer força” para que o clube se mantenha vivo, Mário Moreira não tem a última palavra. Essa deverá surgir, por consenso, na assembleia que reunirá os diretores e fundadores do emblema. “Se eu não conseguir convencer os diretores atuais que o clube deve continuar, aí o problema será resolvido com um processo eleitoral, no qual se terá de arranjar uma nova direção. Se mesmo assim não se conseguir nada, obviamente, entregamos a situação ao presidente da Assembleia-geral, que vai convocar uma nova assembleia para decidir os destinos do clube, um dos quais pode ser a extinção do CAT”, contou.

No entanto, salvaguardou, “as direções ficam sempre vinculadas a resolver os problemas deixados”. Louvando as jogadoras que “dignificaram o clube, com muito amor à camisola”, Mário Moreira não deixou de evocar a história do CAT, que continua a ser “uma grande referência do voleibol nacional, o quarto com mais palmarés em Portugal”.

E por achar “estranho” que de repente todos tenham voltado as costas ao clube, o presidente concluiu com um pedido: “Não nos conotem politicamente, não nos conotem como baixos, gordos, altos, magros, não vale a pena atributos nem referências ao CAT. Este é clube desportivo, exemplar e de topo”.

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