É com o inconformismo e a tristeza de quem tenho assistido ao longo dos últimos anos à partida de dezenas de amigos, conhecidos e familiares de Portugal em busca de melhor sorte no estrageiro. Ainda hoje tive a notícia que mais dois amigos de longa data estão de malas feitas rumo a uma nova “aventura” proletária no estrangeiro. Trabalhadores de fibra, empenhados e estudiosos, em que a dimensão das suas mentes e o poder das suas ideias não são compatíveis com a mediocridade, o amorfismo e o status quo instalados em Portugal. Quando ficar é murchar a única alternativa é partir.

Nas conversas de despedida que fomos tendo, verifiquei haver denominadores comuns que justificam o êxodo. Contrariamente ao que esperava, não é falta de emprego a condição maior para a saída. O que verdadeiramente acende o rastilho que despoleta a vontade de fuga é o total descontentamento com a atual situação do país, a falta de esperança no futuro, as precárias e exploratórias condições laborais cada vez mais enraizadas, mas sobretudo, a total descrença no sistema político e nas estratégias seguidas pelo país. Desvaneceu-se a esperança no seu próprio país. Os vazios apelos ao patriotismo já não os iludem nem os motivam. Necessitam de mentiras novas.

Todos jovens. Todos com desânimo. Todos com a vontade de uma ida sem regresso. Será a constituição de uma nova vida, longe do país que os convidou a emigrar. Com ressentimentos e sem o típico depósito das poupanças em Portugal. Gente que sabe pensar, que prefere o desconforto da exploração temporária, por vezes até a incerteza da ilegalidade num qualquer país estrangeiro, ao total debalde de um país a saque, sem rumo e sem futuro.

O rebentar do caso BES, enquanto o Sr. Primeiro Ministro estava a banhos na Manta Rota e o Sr. Vice Primeiro Ministro submergido durante a tempestade num qualquer submarino, mas sempre com o periscópio de fora, não auguram nada de bom para o país. Todos sabemos que na densa neblina levantada pelo caso BES está implícita a certeza de décadas de mais e maiores sacrifícios para os trabalhadores e para os contribuintes. Ao meio milhão de jovens que Portugal perdeu ao longo da última década, segundo os dados do INE, juntar-se-ão mais umas centenas de milhar (se não milhões) ao longo dos próximos anos. Cumprir-se-à um dos principais desígnios do atual governo: o de ver os seus jovens emigrados, explorados e bem longe das suas zonas de conforto e das suas famílias. Atordoados, espalhamo-nos pelo Mundo. Parecemos cada vez mais um povo sem pátria. Os “parceiros” europeus, africanos e asiáticos agradecem a mão de obra qualificada e barata que lhes proporcionamos.

Não podemos ignorar as consequências a médio e longo prazo que esta estúpida sangria de jovens, recursos humanos altamente qualificados terá no país nas próximas décadas. O conforto momentâneo que a emigração convidada concede ao atual governo (que por essa via consegue diluir parcialmente os reais e desastrosos números do desemprego), serão o calvário dos governos e da sustentabilidade das gerações futuras.

Portugal precisa de jovens e novas políticas. De um novo paradigma de desenvolvimento. Está cada vez mais claro que o sistema capitalista desenfreado assente na desregulação, que governou,  apodreceu e esvaziou Portugal ao longo das últimas décadas está a morrer. Não de Ébola mas de ganância. É este o timing para ter coragem e escolher mudar de rumo. É imperativa uma reação popular capaz de travar o desastre da desertificação juvenil. É necessária visão e vontade para inverter os caminhos que hoje nos levam novamente a Clermont-Ferrant, Larrochette, Manchester, Bradford, Zermatt, Oslo, Schwabisch Hall, Newark, Abu Dhabi, Xangai ou até a uma das cidades mais caras e corruptas do mundo, Luanda.

Gualter Costa

Coordenador Concelhio Bloco de Esquerda Trofa.

gualter.costa@outlook.com