As mulheres e os homens deste País – que têm uma preocupação constante com os mais desfavorecidos, que praticam a solidariedade real, que não brincam à caridadezinha, que trabalham em prol do seu semelhante -, conhecem muito bem o trabalho altamente meritório, que o Banco Alimentar Contra a Fome tem desenvolvido nas duas últimas décadas. Um trabalho de voluntariado exemplar, que devia merecer aplausos de todos.

Em tempos de grave crise social, em que 42% dos portugueses seriam pobres se não existisse as transferências sociais e um milhão de portugueses vive com menos de 280 euros por mês, é de lamentar a campanha bem orquestrada, colocando em risco a próxima campanha do Banco Alimentar para angariar alimentos junto de estabelecimentos comerciais, como tem sido habitual em anos anteriores, e depois serem distribuídos pelos mais necessitados. 

Este trabalho, do Banco Alimentar, mais que meritório, não é uma caridadezinha, mas um acudir aos mais necessitados; é uma emergência social, que precisa de ter alguém a comandar esta grande Nau. E que bem tem sido comandada! Talvez por isso, este vil ataque para denegrir a imagem da economista Isabel Jonet, que exerce a presidência do Banco Alimentar em regime de voluntariado há muitos anos. Muito tempo “roubado” à família para “dar” aos mais necessitados. Bem-haja Isabel Jonet. Com um percurso na área da solidariedade em Portugal e na Europa, que faz muita inveja aos seus detratores, Isabel Jonet conseguiu, com a sua pequena declaração sobre o estado do País, provocar a ira de quem agora questiona a sua liderança naquela instituição – que, recorde-se, fornece alimentos a muitas organizações de solidariedade social.

Dizer a verdade, pode causar engulhos e foi o que aconteceu: Isabel Jonet alertou contra o desperdício e criticou a maneira de estar dos portugueses face ao consumo afirmando que grande parte da população viveu muitos anos acima das reais possibilidades e que os portugueses vão ter que aprender a viver com menos. Manifestou a sua convicção de que algo tinha de mudar na forma como os portugueses vivem. Ao aprofundar mais o seu pensamento sobre a situação atual, disse que os portugueses vão ter que aprender a viver mais pobres, pois vivíamos muito acima das possibilidades e estamos a empobrecer realmente. Afirmou também: “Nós vivemos de uma maneira completamente idiota”, dando dois exemplos: não há capacidade económica para comer bife todos os dias e antigamente as pessoas lavavam os dentes com a água no copo e agora, o mesmo é feito com a água a correr. “Há toda uma reaprendizagem de vida que, ou vamos a um concerto de rock ou podemos ir tirar uma radiografia quando caímos numa aula de ginástica”, concluiu Isabel Jonet. 

A verdade é que Isabel Jonet já sublinhava, numa entrevista em 2006, que os bancos alimentares contra a fome, existem para lutar contra o desperdício. E foi contra esse desperdício que ela se referiu, quando afirmou que devemos lavar os dentes com um copo de água e não com a torneira da água a correr e que nem todos os dias podemos ter bifes na mesa. Como é que um bife pode originar tanta verborreia estéril?

Não todos, mas muitos dos que verbalizaram o seu horror perante estas afirmações, regem-se pela máxima: cada um na sua e ninguém na de ninguém, pois nunca travaram um combate à pobreza, nunca deram um passo em direção do seu semelhante que tem o estômago vazio e muito menos trabalharam voluntariamente em prol dos mais necessitados. 

Na próxima campanha do Banco Alimentar Contra a Fome os portugueses vão dar uma resposta positiva, como sempre o fizeram. Vão contribuir dentro das suas possibilidades e com esse gesto, vão fazer calar aqueles que são do contra, mas não sabem do que são a favor.

 

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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