Num destes dias de preparação para o Natal, no meio de listagem de compras, idas ao shopping, embrulhos, mensagens e muita correria, dei por mim em profunda nostalgia a sonhar com outros Natais.

Nunca como este ano recordei tantas vezes o Natal da minha infância passado na terra dos meus avós paternos, há mais de 20 anos!

Chegadas as férias de Natal, eu e os mais pais, lá rumávamos na nossa Renault 4L, ao pequeno lugar de Vinheiros, na encosta da serra da Abobereira, na freguesia de Soalhães.

Teresa FernandesEmbora os acessos fossem difíceis e a neve e a geada não ajudasse à viagem a verdade é que a carrinha ia sempre carregada.

Não podemos dizer que eram prendas, mas sim ofertas e pequenos mimos, para os meus avós e vizinhos, que pouco mais tinham do que aquilo que a terra lhes dava.

As feiras e mercados eram longe e o percurso que era feito a pé não permitia trazer muitas compras e o dinheiro também não dava para extravagâncias, mesmo no Natal.

Lembro-me que a minha mãe levava sempre roupa para os meninos mais pequenos que eu, fruta, caixas de bolachas, arroz, massa e os pais natais de chocolate como mimo supremo.

Estes gestos eram sempre generosamente retribuídos com ovos caseiros, um pão acabadinho de fazer, um leite de vaca quentinho, umas batatas, umas couves, mas sobretudo muita amizade.

Só nas ferias ou fins-de-semana prolongados lá íamos, e os meus avós aguardavam sempre ansiosos a nossa chegada que era sempre anunciada com um toque de buzina, ainda longe mas bem audível.

Quando chegávamos, o meu avô já tinha o portão de madeira aberto e a minha avó a mesa para o almoço pronta.

Confesso, que na altura não gostava de lá estar muitos dias seguidos, sem os meus primos e amigos colegas de brincadeira, sem televisão, “apenas” com o barulho da água a correr no ribeiro e o rádio antigo do meu avô que custava sempre a sintonizar.

Agora, recordo esses dias, com a certeza que era uma privilegiada.

Não havia luxos, nem prendas caras, nem árvore de Natal, mas havia uma lareira sempre acesa para nos aquecer e para cozinhar nas panelas de ferro, uma broa a sair do forno, uma cama com colchão de colmo, cobertores de lã de ovelha, um ar puro e leve, uma água límpida, um céu estrelado e uma paisagem deslumbrante sobre a cidade do Marco de Canaveses.

E muitas tarefas para cumprir: dar milho as galinhas e pegar nos ovos, soltar as ovelhas, colher erva para a vaca e o vitelo, alimentar os coelhos, regar as couves e a horta, moer o milho para o pão nos moinhos de água, cortar lenha e passear pelos campos.

Recordo com saudade, a simplicidade daqueles Natais, sem azáfama e sem prendas para abrir, mas com muitas histórias contadas pelo meu avô Manuel à lareira, da juventude passada nos bailes e das investidas do lobo e da raposa ao galinheiro, nem sempre bem sucedidas!

Consigo lembrar-me desses Natais com mais detalhe, sentindo até os cheiros e os sabores, do que dos Natais mais recentes, porque o espírito era definitivamente outro, mais simples mas muito mais profundo e por isso inesquecível.

Nestes momentos de crise que vivemos, é importante parar e pensar, abdicar do espírito consumista e tentar viver um Natal mais simples, mais puro, mas com mais sentimento, mais simplicidade, mais amizade, mais amor e solidariedade, e assim redescobrir a verdadeira essência desta quadra.

Desejo a todos um Santo Natal e um Novo ano de 2009 repleto de saúde, paz, sucessos e amor!

 Teresa Fernandes