Nesta época natalícia, o tema da pobreza é por demais chocante, para dar prazer a ler, mas não é fechando os olhos que os números obscenos de mais de dois milhões de pobres que existem em Portugal, vão desaparecer ou mesmo diminuir. Mais de um quinto da população portuguesa é pobre!

É verdade, que é mais fácil fechar os olhos aos problemas que pensamos não se poderem resolver, do que atacar eficazmente este flagelo da nossa sociedade, que indiferente, constata a realidade da existência, cada vez em maior número, de pessoas que não têm uma refeição digna, uma cama, uma voz, um afecto.

jose moreira da silvaO Estado, por si só, mesmo que queira, planeie e tente fazer, é incapaz de resolver este assunto de tamanha gravidade, a não ser de braço dado com a sociedade civil e esta também não pode, nem deve, desculpabilizar-se com inacções e cegueiras cobardes, para justificar a venda nos olhos.

As genuínas fontes de geração de riqueza, são as empresas, que com os tempos conturbados que vivemos, têm dizimado uma quantidade significativa destes verdadeiros baluartes potenciadores de bem-estar e, por isso mesmo, o número de desempregados tem vindo a aumentar assustadoramente. Paralelamente, Portugal é um dos países que lidera as desigualdades na distribuição de rendimentos dos cidadãos e aquele que entre os países da Zona Euro, tem menor poder de compra.

O Governo português adoptou, com carácter de urgência, um plano fiscal de estímulo à economia, para salvar milhares de pequenas e médias empresas, que são o motor da nossa economia e geradoras de milhares e milhares de postos de trabalho que correm o risco de fechar muito em breve.

O estímulo à actividade económica em Portugal, cuja crise económica é anterior ao actual quadro de recessão internacional, tem de ser corajoso ao nível fiscal para que a economia portuguesa funcione. Foi preciso algum esforço, por parte do Governo para entender que há milhares de pequenas e médias empresas, que fecham as portas, se não forem rapidamente ajudadas ao nível de tesouraria e liquidez.

Para evitar consequências dramáticas do ponto de vista do emprego, também é necessário redução do plano especial por conta; do plano por conta, assim como o reembolso mensal do IVA. O anúncio da existência de estímulos para as empresas, que contratam assalariados, nomeadamente jovens ou pessoas que estão há bastante tempo no desemprego, foi uma medida acertada e oportuna.

Portugal entrará em recessão técnica, se a economia voltar a registar um crescimento negativo no quarto trimestre deste ano. Existem causas internas e externas para a actual situação, mas nesta matéria, o Governo socialista teve um mau desempenho, pois nunca preparou devidamente o país para enfrentar a crise e nunca criou condições, a nível fiscal, das empresas, até a nível da situação da justiça, para enfrentar a actual situação. Um bom investimento público, sensato e selectivo que hipoteque o menos possível as gerações vindouras, poderá ser uma das formas de ultrapassar a conjuntura calamitosa que o país atravessa.

Na verdade, e com notícias tão desanimadoras, a solução mais fácil seria a de tapar olhos e ouvidos e imaginar cenários menos dantescos. Contudo e como a realidade consegue ser muito mais brutal do que qualquer ficção, devemos estar preparados para um significativo aumento dos índices de pobreza em Portugal. Todos os cidadãos deverão ser actores sociais, ou mais precisamente, agentes de mudança.

Falar da realidade que é a pobreza e denunciar a ausência de afectos, de que são vitimas mais de dois milhões de portugueses, é uma das formas de a reconhecer e assim de poder passar da consciencialização para a acção, para se poder proporcionar, num futuro breve, um bom Natal para todos.

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt