A poucos dias do Natal, a Câmara Municipal da Trofa (CMT) levou a cabo a cerimónia de lançamento da primeira pedra da obra dos Paços do Concelho, organizando, para o efeito, um evento que custou cerca 21.400,00€ (+IVA).

Um evento cuja organização foi adjudicada a uma empresa que, dois dias após a assinatura do ajuste directo com a CMT, se viu envolvida numa investigação do Ministério Público (MP), sobre suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Uma empresa que, no que toca ao registo disponível na plataforma Base, tem na CMT o seu principal cliente. Dos 23 contratos registados na plataforma que monitoriza todos os contratos do sector público, e que totalizam 541.570,32€, sete têm como cliente a CMT. São cerca de 30% dos contratos, 187.648,07€ do valor total.

Se o lançamento da primeira pedra teve um custo superior a 21 mil euros, imagino quanto custará a inauguração. A julgar pelos 120 mil euros gastos com a inauguração da obra dos parques, corremos o risco de subsidiar mais um grande comício-inauguração, com contornos negociais estranhos, o que de resto não seria novidade nenhuma.

Mas não é isso que me traz aqui. Tampouco são as alegadas maroscas nas quais a empresa fornecedora estará envolvida, e que levaram a buscas do MP no nosso concelho. O que me traz aqui é a dualidade de critérios que está na base da definição de prioridades do nosso concelho. E trago comigo um exemplo que ilustra isso mesmo, contemporâneo do grande evento da primeira pedra.

Falo-vos do Mercado de Natal (MdN) organizado pela CMT, na Alameda. Uma boa iniciativa, apesar de, a meu ver, subaproveitada. Pior: apesar da previsão de chuvas e ventos fortes, decorrentes das tempestades Elsa e Fabian, nada foi feito para acautelar a parte do MdN que utilizou equipamentos públicos. E isso resultou, por exemplo, na queda do pórtico, que felizmente não feriu ninguém, apesar do banco de cimento que apareceu destruído mesmo à entrada do MdN. À hora que a classe política lançava pedras na obra dos Paços, várias bancas que a CMT disponibiliza para os comerciantes estavam tombadas no chão, possivelmente danificadas. E assim estiveram dois a três dias. Apesar dos alertas do IPMA, a organização do MdN não conseguiu uma pequena verba para montar uma tenda que protegesse os comerciantes, o que tornaria o mercado mais aconchegante, mais atractivo e com condições decentes para comerciantes e visitantes. À semelhança daquilo que é feito com a Feira do Livro. Já para o lançamento da primeira pedra, que poderia ter sido feito em qualquer outro dia, por se tratar de um acto meramente simbólico, não faltou uma bela tenda para acomodar políticos e amigos, não fosse cair alguma morrinha.

Poderão os responsáveis camarários alegar que o valor adjudicado ao evento em si decorre de uma rúbrica para essa e não outra finalidade. É possível que assim seja.

Não obstante, o planeamento de ambos os eventos é pensado, feito e/ou aprovado pelas mesmas pessoas. E essas pessoas acharam que haveria conforto suficiente, para comerciantes e visitantes, num conjunto de barracas desamparadas, sujeitas às habituais intempéries desta altura do ano. Acharam, talvez, que um conjunto de pequenas tendas, ao frio e à chuva, seria minimamente atractivo para potenciais visitantes. Não lhes passou pela cabeça proteger o certame com uma tenda. Já para o simbólico lançamento da primeira pedra, que durou um par de horas, as mesmas pessoas acharam indispensável a existência de uma tenda. Porque os comerciantes e os visitantes do MdN podem ser sujeitos ao mau tempo durante quase um mês, mas os senhores políticos não podem arriscar-se a levar com uma pinga de chuva durante duas horas, não vá a primeira pedra constipar-se.