O Dia Internacional das Pessoas com Deficiência assinala-se, anualmente, a 3 de dezembro. O NT não quis deixar passar a data despercebida e falou com António Marranita, portador de cadeira de rodas, sobre as dificuldades que enfrenta com as barreiras arquitetónicas.

António Marranita já perdeu a conta às chamadas de atenção que endereçou a responsáveis autárquicos para as barreiras arquitetónicas que encontra, diariamente, na Trofa e que o privam de segurança ou qualidade de vida. Vítima de uma doença degenerativa, tem que se deslocar numa cadeira de rodas e circular pela cidade – à imagem do que acontece um pouco por todo o país – é um verdadeiro desafio. Acessos sem passeios, passeios mal construídos, passeios com buracos ou tampas mal colocadas pululam pelas várias ruas trofenses. E o que dizer de rampas cuja inclinação “mais parece uma pista para brincar”? Um dos exemplos é uma junto à Academia Municipal (Aquaplace), perto do local de trabalho de António Marranita. “É uma descida íngreme que fizeram no passeio para permitir a entrada de carros, mas constitui um perigo enorme para quem se desloca em cadeira de rodas”, conta.

Outra barreira encontra-se num passeio construído a par da nacional 14, em frente ao posto de combustível BP, no centro da cidade, cuja esquina encurta o espaço, tornando impossível a passagem de pessoas com mobilidade reduzida e carrinhos de bebés. “Os meus pais acabaram por colocar pedras e terra naquele local para alargar o passeio, já que, caso contrário, se utilizasse a passadeira, teria de ir pela estrada”, contou.

Mais à frente, mais próximo da rotunda do Catulo, na Rua Guerra Junqueiro, existe uma passadeira mesmo junto à estrada nacional mas, a não ser que se utilize a estrada, só pode ser usada por pessoas sem mobilidade reduzida. É que a rampa está localizada a cerca de dez metros de distância.

“O estacionamento de carros em cima dos passeios é quase constante e a utilização indevida de lugares restritos a veículos com dístico também. Ainda hoje (terça-feira), aconteceu, tive que esperar que uma pessoa retirasse o carro para poder usufruir do meu lugar”, relatou.

Este é um problema que vem da “raiz” e tarda a ser visto seriamente pelos responsáveis políticos, que “dizem que vão atuar, mas depois não fazem nada”, desabafa. E o problema não está só na rua. Os edifícios públicos são os primeiros a reprovar no teste da igualdade de acesso. No sabado, António Marranita não pode assistir ao espetáculo que  decorreu no auditório da Junta de Freguesia de S. Martinho de Bougado, porque não há acesso para pessoas com mobilidade reduzida. “O antigo presidente por duas vezes me disse que tem um elevador de escadas para subir para o anfiteatro. Disse que não conseguia arranjar quem montasse aquilo e até pediu ao meu pai para o fazer, mas até hoje nunca mais ninguém me contactou”, contou. O mesmo se pode dizer do salão nobre dos Bombeiros Voluntários da Trofa” e outros locais podiam ser referidos, mas António Marranita já não arrisca passar por lugares que não conhece, porque, afirma, “já sei que não vou ter acessos”. Sobre a lei 123/97, de 1997, que estipulava sete anos para que os edifícios públicos fossem dotados de acessos para pessoas com mobilidade reduzida – e que sofreu um prolongamento de mais sete anos – António Marranita já não ouve falar “Entretanto já se devem ter esquecido”, frisou.

Para este trofense, o problema persiste porque “as pessoas não conhecem os casos de perto e não tão sensíveis”. “Há quem aprove obras sem que os critérios de mobilidade sejam cumpridos”, sublinhou

 

A “falta de informação” e os elevados obstáculos para conseguir apoios estatais fazem com que muitas pessoas não os peçam ou desistam de lutar. António Marranita está “há quase dois anos” à espera de baterias para a cadeira de rodas, às quais tem direito por ser trabalhador deficiente. “O Instituto de Emprego analisa, pede papéis e mais papéis e demora a responder. Voltei a forçar e o responsável mandou-me um email a dizer que a meio de dezembro deverei ter as baterias. Vamos ver”, referiu.

As ajudas técnicas “existem”, acrescentou, mas “demoram a ser desbloqueadas” e “são inacessíveis” a muitas pessoas. O içador com carril, que António Marranita tem no teto de casa, e que ajuda os pais a levantá-lo da cama ou a levá-lo para a banheira da casa de banho, custou “cerca de dez mil euros”.

Normalmente, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, que se assinala a 3 de dezembro, António Marranita costuma enviar um email à Câmara Municipal para sensibilizar e apelar a uma maior atenção. Até hoje, ainda espera por uma resposta que lhe possa dar melhor qualidade de vida.