Ano 2011
MOÇÃO DE CENSURA – Muito inoportuna
Numa altura em que estamos a viver com duríssimas medidas de contenção, com pesados sacrifícios para todos os cidadãos, o que menos necessitamos é de instabilidade política.
Acredito que o anúncio do Bloco de Esquerda da apresentação, lá mais para diante, lhe possa trazer alguns benefícios políticos, mas, seguramente, não traz benefícios, nem para o regime democrático, nem para a economia do país.

Mas, numa fase de emergência, duvido que fosse possível fazer a contenção no pleno respeito pelas preocupações sociais e acertar em todos os cortes na despesa.
Sabemos apenas que o défice do Estado tem que baixar e rapidamente sob pena de não ser viável o financiamento à nossa economia.
Saber como chegámos a este ponto é outra questão que deve ser ponderada quando a emergência económica e financeira estiver debelada. Então sim, devemos, todos, mas principalmente quem governa, ponderar muito bem no que sucedeu e nos motivos que nos levaram a esta situação.
Deve ser identificada a origem, ou origens, dos nossos crónicos problemas financeiros e económicos, para além dos que foram provocados pela crise financeira internacional.
Mas, nesta fase, há que socorrer o doente, dar-lhe o tratamento para, mais tarde, se ponderar sobre as causas que provocaram a doença.
Nesta fase, não podemos andar a brincar às crises políticas. O Governo tem um orçamento, recentemente aprovado e deve cumpri-lo. Não podemos, ao fim de menos de dois meses de execução orçamental, aprovada pela Assembleia da República, sem que o Executivo dê mostras de boa ou má execução, criar uma crise política que só serve para agravar os problemas de confiança económica. Independentemente de culpas, necessitamos de estabilidade política, social e económica.
Os governos devem ser julgados nos actos eleitorais e o actual governo, ou a sua base política, foi julgada há não muito tempo. Deve cumprir o seu mandato e ser julgado no fim.
Penso, por isso, que a Moção de Censura, anunciada para Março, pelo Bloco de Esquerda, não serve qualquer objectivo útil para o país nem para as classes desfavorecidas que o BE diz defender. O Bloco esquece, ou faz-se desentendido, que as crises económicas são sempre mais difíceis de suportar para as pessoas ou famílias de baixos recursos.
A queda do governo, nesta fase, podia significar o descalabro total e as consequências económicas não tardariam.
Não se entende esta Moção de Censura. Se o Bloco de Esquerda se identifica com a esquerda, porque razão está a abrir as portas à direita, ou mais à sua direita? A contabilidade política talvez lhes faça pensar em aumentar a quantidade de votos no seu partido, mas sabe que resvalaria para a direita.
Não há aqui qualquer atitude de defesa dos valores da esquerda e, muito menos, do interesse nacional: subir a votação no seu próprio partido é o único objectivo de BE.
Não entendo as abstenções anunciadas. Os partidos que anunciaram a abstenção, na votação de Março, deviam votar contra sem que isso significasse apoio ao governo. Seria um voto contra a instabilidade, contra a irresponsabilidade e poderiam tornar públicos as suas justificações. Só teriam a ganhar.
Afonso Paixão


