O carinho e o afecto à flor da pele são traços comuns a todos estes jovens e adultos que dão uma verdadeira lição de vida àqueles que nasceram com mais oportunidades. Quem convive lado a lado com estas forças da natureza garante que no final de cada dia tudo parece mais fácil.

Fátima é um dos muitos rostos que espelham a gratidão por, em determinado momento da vida, terem encontrado uma segunda casa. Fátima faz parte do grupo de utentes da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental da Trofa.

Juntou-se a esta casa que também é sua há nove anos, encontrou aqui a verdadeira família e uma nova oportunidade para o seu talento. Na APPACDM é ajudante de cozinha, onde se dedica a confeccionar alimentos e o que mais gosta de fazer é “queijadinhas”, confessou ao NT/TrofaTv. Aos 38 anos, Fátima não tem pai nem mãe, mas garante que é muito feliz junto da família que trata por tu na associação trofense.

Ricardo e Andreia são outros dos muitos jovens que servem de exemplo para mostrar que nada é um obstáculo na vida. Vistos como “diferentes” aos olhos de muitos, sabem como fazer a diferença na sociedade. É com “amor e orgulho” que Ricardo aplica as suas mãos habilidosas nos teares para elaborar “panos bonitos” e dar conta das “muitas encomendas” que sempre tem. Já para Andreia o tempo na APPACDM é passado da melhor forma a “lavar cabeças e a praticar penteados nas bonecas e colegas”. A formar-se ajudante de cabeleireira, Andreia não hesita em dizer que é na associação que se sente mais feliz.

Trabalhos com papel reciclado, madeiras, plasticina e bordados são apenas algumas das obras de arte que nascem das mãos destes alunos e que por altura da ExpoTrofa são vendidos a quem passa pela “tasquinha” da APPACDM. “Todos nós quando nascemos temos determinados talentos que Deus nos dá”. Esta é uma certeza aos olhos de António Leitão, presidente e fundador da APPACDM. “Temos obrigação de por esses talentos a render e eu pus estes talentos a render”, conta orgulhoso, em entrevista exclusiva ao NT/TrofaTv.

O carinho e o afecto à flor da pele são traços comuns a todos estes jovens e adultos que dão uma verdadeira lição de vida àqueles que nasceram com mais oportunidades. Quem convive lado a lado com estas forças da natureza garante que no final de cada dia tudo parece mais fácil. Sérgio Monteiro é um desses exemplos que se dedica há sete anos a elevar a auto-estima destes jovens que para o educador social são acima de tudo “muito verdadeiros”. “Eles dão-nos muito, eles gostam das pessoas e demonstram-no, no nosso dia-a-dia com eles é tudo muito mais fácil”, assegura.

Sob o olhar da psicologia, os profissionais desta área explicam que as associações dirigidas a pessoas com necessidades especiais pretendem ser um espaço alternativo aos olhares da diferença na sociedade. Psicóloga há quatro anos na APPACDM, Rosália Ferreira adiantou ao NT/TrofaTv que naquela instituição os alunos encontram “um espaço protegido onde eles se sentem à vontade, ao contrário da sociedade que muitas vezes os discrimina”. E é daqui que sem dúvida eles não querem sair de modo algum. “Quando algum deles tem de ficar em casa porque está doente ou tem de ajudar a mãe é um bicho de sete cabeças, em casa não podem ficar, para eles esta é a sua segunda casa”, garante.

Para alguns seria mesmo a primeira casa se a residência, inaugurada há sete anos, já estivesse a funcionar. Lamentando o facto de a Câmara Municipal da Trofa ainda não ter emitido a licença de habitabilidade para este espaço, António Leitão recordou a importância do mesmo. “A residência será para alunos que percam a retaguarda familiar ou para períodos temporários para aqueles cujas famílias precisem de um descanso”, adiantou.

Empresa de inserção é o “orgulho” da instituição

O desafio de querer ajudar jovens com deficiência mental nasceu em Outubro de 1982. A comemorar 27 anos ao serviço de pessoas com necessidades especiais, António Leitão é hoje um homem realizado por todo o trabalho alcançado. Foi a vontade de querer “dar voz” àqueles que não sabem reivindicar as suas necessidades que levou o fundador da associação a dar asas a esta missão de solidariedade social. Mais do que uma acção humanitária que incute neste jovens os valores da família e da força de espírito, a APPACDM também lhes dá a oportunidade de desenvolverem uma actividade ocupacional ou mesmo profissional. De acordo com as vagas existentes, qualquer criança a partir dos 6 anos pode ser utente da APPACDM da Trofa. Ao atingir a maioridade, os jovens podem passar para o centro de actividades ocupacionais, tendo em conta as suas capacidades. Entre os 6 e os 18 anos de idade a instituição acolhe 28 utentes. No centro ocupacional são já 50 os jovens, mas destes apenas 37 são subsidiados no âmbito de um protocolo com a Segurança Social.

Para além das actividades ocupacionais, a instituição criou uma empresa de inserção para integrar na sociedade os jovens com deficiência mental ligeira. Sendo um projecto que enche de orgulho António Leitão, a unidade “amiga do ambiente” garante um posto de trabalho para 22 pessoas que ali despertaram para um novo sentido de responsabilidade. Apoiado maioritariamente pelo Ministério do Ambiente e pelo Centro de Emprego, o projecto resultou na criação de uma empresa de reciclagem que recolhe resíduos industriais de cartão, papel, plástico, têxteis e ainda uma grande quantidade de esferovite. Esta é desfeita no moinho e vendida posteriormente para puff’s ou para a construção civil. Desta empresa, que António Leitão chama de “pró-ambiente e pró-deficiência”, são retirados benefícios económicos, pois tudo o que entra é oferecido e tudo o que sai é vendido.

A instituição possui ainda uma quinta na Agrela, Santo Tirso, onde são cultivados produtos de agricultura biológica que são cozinhados na casa da Trofa.

Orgulhoso pelo património “valioso” erguido, o presidente da APPACDM da Trofa não tem dúvidas de que mais apoios poderiam ter feito a diferença. “Não vamos mais à frente porque nem sempre as ajudas têm surgido na devida altura, se nos deixassem andar tínhamos feito muito mais coisas. Para além de querer ver a residência a funcionar o mais rápido possível, António Leitão avançou que ainda gostava de completar as infra-estruturas da instituição com um auditório, que seria construído sob o campo de jogos. Estes são apontamentos que por enquanto apenas podem ler-se no caderno de sonhos do presidente, mas enquanto os sonhos rumam a caminho de um futuro incerto, uma certeza fica para quem visita estes jovens. A felicidade é feita de pequenos sucessos. E para contribuir ainda mais para a felicidade destas crianças, jovens e adultos, a APPACDM já está à espera de encomendas para os postais de Natal, elaborados todos os anos pelos alunos da associação.