A presente crónica tenta explanar um pouco mais um dos muitos assuntos abordados em várias outras crónicas, nomeadamente a questão de S. Romão do Coronado ser encarada como uma das localidades do país que era escolhida por gente de todo a nação para efetuarem os seus tratamento contra variadas doenças pulmonares, com maior incidência na tuberculose.

A 9 de maio de 1878 na freguesia de Penafiel, nascia Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos que acabaria poucos anos depois antes de completar uma década de existência por emigrar para o Brasil conjuntamente com os seus pais.

Alguns anos depois de estar no Brasil iria regressar a Portugal para viver em casa dos seus avós paternos para posteriormente ingressar no ensino superior e quando tudo fazia indicar que iria entrar em medicina acabou por escolher seguir direito.

Fruto das suas convivências na faculdade acabaria por demonstrar durante o seu curso alguma apetência para a crítica do estado da sociedade que penalizava aqueles que poucos recursos tinham. Acabaria por voltar ao Brasil em 1901 onde iria estabelecer contactos com anarquistas italianos que iriam marcar profundamente e decididamente a sua forma de encarar a sociedade.


Acabaria por retornar a Portugal em 1910, mas no ano anterior iria ser o autor da tradução do célebre hino “A Internacional”. Contudo, iria continuar a enviar os seus artigos para o Brasil contribuindo de forma decisiva para o aumento do seu reconhecimento.

Participa no 1º Congresso Anarquista Português, com enorme reputação no seio político português, contudo, a sua saúde era o maior entrave ao desenvolvimento do seu percurso político e acabaria por sofrer de tuberculose como grande parte da sua família, aquela doença iria vitimar também alguns dos seus filhos.

Os problemas sociais em Portugal em 1920 agravavam-se, as dificuldades eram elevadas e claramente aquele momento marcava a agenda política do país e a pedido dos seus camaradas de luta, foi lhe indicada a localidade de S. Romão do Coronado como o local ideal para se livrar daqueles males de saúde, conseguindo o apoio desses camaradas após uma coleta pelos leitores do jornal “A Batalha”, com anarquistas do Porto e Lisboa a contribuírem para esse internamento.

Relativamente ao sanatório no Coronado, que se estaria a construir ou até mesmo o aproveitamento de outras instalações, pouco ou mesmo nada sei, apenas eram conhecidas as várias casas e quintas, como também do Hotel de S. Romão e a Pensão Moderna que ia acolhendo os inúmeros veraneantes e também doentes que desejavam tratamento.

A paisagem de S. Romão era marcada pelos típicos bosques que havia na região, vários apontamentos na imprensa para os pinheiros que eram em grandes quantidades e a poluição era praticamente inexistente.
A onda de apoio à sua causa acabaria por se estender também ao Brasil, todos os esforços eram necessários para apoiar a si e à sua família.

No dia 7 de setembro quando tudo apontava para a sua melhoria teve um ataque que o deixou bastante combalido e passados 8 dias, a 15 de setembro de 1920 um novo ataque iria marcar profundamente a sua saúde e iria ser decisivo para a sua morte. Segundo Alexandre Samis, a sua morte ocorreu na enfermaria do sanatório, reforçando o argumento da sua existência.

O seu funeral foi em S. Romão do Coronado e o seu velório teve pouca participação de membros de atividade política e público. Havia dificuldades de comunicação e para azar da vítima também decorria uma das muitas greves dos ferroviários.

Um dos maiores impulsionadores do anarquismo, uma das referências das lutas operárias do início do século iria morrer em S. Romão e marcar a história do movimento operário do nosso país, uma referência que partiu em terras do Coronado.

José Pedro Reis