atanagildolobo 

Pablo Neruda

No passado dia 6 de Março completaste 89 anos de idade. Nestas ocasiões é rotineiro dar os parabéns. Mas, sobretudo, quero homenagear-te. Simultaneamente também homenageio meu pai que, tal como tu, nasceu em 1921 e foi, coerente e consequentemente, um dos teus. E agradecer-te.

Sim, agradecer-te. Pelo passado, pelo presente e pelo futuro. Porque me ensinaste pela tua história, pelo teu património, o significado das palavras «inconformismo», «resistência» e «luta». Todos os que existiam na altura do golpe militar de 28 de Maio de 1926, desapareceram – Partido Democrático, Partido Republicano, Partido Socialista e Anarquistas – por auto-dissolução ou aniquilados pela repressão. Todos cessaram a actividade. Só tu permaneceste. Mais. Ensinaste, aprendeste, cresceste, desenvolveste e transformaste-te no grande Partido Comunista Português. Foste único a conduzir e a nortear de forma organizada, constante e incessante a luta em defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo. A luta pelo Pão, pela Liberdade e pela Democracia. Muitos difamam-te, apelidam-te de ditador. Mas o teu património fala por si. Não trai. Os teus militantes, os comunistas, durante 48 anos de ditadura fascista pagaram com profundos sofrimentos. Existências completas consagradas à luta clandestina. Milhares de mulheres e homens perseguidos, presos e torturados. Muitos assassinados a tiro nas ruas ou com torturas nas prisões. É manifestamente impossível narrar aqui a tua história. Neste centenário da República, estás como mais nenhum, intimamente ligado, até às entranhas, à história do século XX, pela tua ligação visceral à luta de massas, porque foste milícia de combate, o braço, a frente, a dignidade e a consciência do povo português na luta pela liberdade.

Agradeço-te pelo presente, em que a tua vida se mistura com a minha. Porque me ensinaste, educaste e cultivaste a ser o que sou. Porque me abriste o caminho e mostraste-me um outro mundo. Um mundo onde a fome, a miséria e o desemprego foram erradicados. Onde o conforto material e o acesso à instrução e cultura são uma realidade. Onde se difundem a ciência, a técnica e a arte para todos. Onde se afiança à juventude o ensino, a cultura, o trabalho, o desporto, a saúde e a alegria. Onde se aleita uma infância feliz e se abona a tranquilidade e a qualidade de vida para os idosos. Onde se confirma a independência nacional e a defesa da nossa soberania, da segurança e da paz. Esse mundo chama-se sociedade socialista em Portugal e é o oposto daquilo que temos hoje.

Agradeço-te pelo futuro. Muitos dirão que se trata de uma utopia, de que é impossível construir-se este mundo. Graças a ti, não tenho essa visão conformada e derrotista do ser humano. A revolução de 1383-85 demonstrou que era possível a eleição de um líder, que era possível a ascensão de novas classes, que era possível um Portugal melhor. O 5 de Outubro provou ser exequível uma nova sociedade, com mais direitos democráticos para todos. O 25 de Abril de 1974 demonstrou ser possível derrotar uma ditadura, restaurar a democracia, que não foi nenhuma utopia teres estado com o povo nessa luta heróica pela liberdade. Assim, é perfeitamente possível o socialismo em Portugal. E até nem é coisa de outro mundo. Bastava que aqueles que têm muito não tivessem tanto.

Mas contigo aprendi mais. Aprendi essa imensa exultação de viver e de lutar que vem da intensa certeza de que é justa, arrebatadora e imbatível esta causa por que lutamos. Descobri esse nosso sonho da libertação dos trabalhadores portugueses e de todo o povo português de todas as formas de exploração e opressão. Aprendi a necessidade de seres comunista pois, como diria Álvaro Cunhal, é por seres comunista que o povo e o país precisam de ti.

Por fim, quero agradecer-te pelo sentido da coerência, pela firmeza dos princípios, pela defesa dos valores, pela abnegação na luta, pelo sentido da vida. E para isso também me ensinaste a amizade, a cumplicidade, a alegria, a partilha, a solidariedade e o respeito. Nasceste da semente lançada na terra rasgada pelo sulco do arado, do martelo que bate compassadamente, da seiva que escorre da árvore, de ventos e marés que cortam ondas de liberdade. Eu e os meus camaradas forjamos-te e tu aqui estás. Nas palavras que só os poetas têm o dom de produzir, « tornaste-me indestrutível, porque graças a ti, não termino em mim mesmo». Sobretudo, prosseguindo com Neruda, «fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria».

Guidões, 7 de Março de 2010.

Atanagildo Lobo