Dou comigo todos os dias a acordar apreensivo, sob a tormenta obscura de um futuro imediato amorfo, cinzento, sem cores, sem vida. Gostaria de sentir o contrário. Acordar e sentir a alegria de um tempo de felicidade em que o ser humano tivesse o essencial para a sua existência, educação, cultura, saúde, trabalho e satisfação.

O sistema político, económico e social em que vivemos, designado por capitalismo, demonstra à saciedade ser absolutamente incapaz de gerar felicidade, de construir uma vida digna e condigna para o homem. Pelo contrário, o sistema apenas cria desigualdades sociais profundas, assimetrias regionais consideráveis, onde os muitos ricos são cada vez mais ricos e onde cresce a frota dos pobres. A penúria e a miséria, a saúde deficitária, o desemprego, a fome, a falência, a guerra são tudo consequências da implantação e desenvolvimento deste sistema capitalista que, porque tem uma força descomunal, se transfigura, engana, enreda, explora, tortura, mata, para depois se voltar a transfigurar, a enganar e a explorar.

Não sou adivinho nem mágico. Mas há coisas que me parecem evidentes. Vivemos num país que, fruto da opção tomada, não tem futuro. Não venham dizer que Portugal é diferente da Grécia, porque não é. Até o turismo parece ser a aposta mais forte de ambos. Todas as medidas adotadas, redução real dos salários e pensões, subida do IVA, do IRS, dos combustíveis, do gás, da eletricidade levam Portugal a uma recessão económica que só gerará mais recessão e daqui por pouco tempo aí estaremos em situação semelhante à que a Grécia se encontra hoje.
Este governo, indo mais longe que o próprio triunvirato estrangeiro, vai agora esganar mais os trabalhadores portugueses com um imposto extraordinário sobre o rendimento retirando-lhes uma parte do subsidio de Natal, quando não estabelece qualquer um outro imposto que, de forma segura, tributasse o grande capital económico e financeiro e as grandes fortunas. O mal não é dividido proporcionalmente por todos, nem é sequer dividido. São sempre os mesmos que pagam: os pobres e a classe média. Sim, porque quem aufere rendimento inferior a 485,00 € não é pobre, é muito pobre. Ponha-se lá um desses “trutas” a viver com 485,00 € por mês!..nem para um dia chegaria.

Sendo certo que esta politica de submissão da soberania nacional, de desmantelamento da nossa economia, de recessão e de empobrecimento do povo português teve a legitimidade do voto expresso, necessário será não esquecer que não obteve o apoio dos portugueses. Não se pode esquecer que o número dos que não votaram, com os votos brancos e nulos é praticamente o mesmo dos que votaram nos três partidos do triunvirato – PSD, PS e CDS. Acrescentando-se ao número de abstencionistas, brancos e nulos os votos daqueles que se manifestaram contra a política seguida ( CDU e BE e outros pequenos partidos ) temos que são muitos mais contra essa politica imposta pelo FMI/Governo/Grande Capital do que os são a favor. É certo que essa grande massa abstencionista não se manifestou, mas também é certo que não apoiou esta política, pois senão ter-se-ia declarado positivamente. Por isso e ao contrario do que pretende o Presidente da República e Paulo Portas, os abstencionistas têm exatamente o mesmo direito de se manifestarem e de deduzirem oposição se sentirem os seus direitos ameaçados. Mais, os próprios eleitores que votaram no PSD e no CDS têm igual legitimidade, até porque algumas das medidas adicionais nem foram anunciadas em campanha eleitoral.

Ora, o estrangulamento do povo português por via desta política é tão inevitável como o próprio aperto das micro, pequenas e médias empresas que levarão à inevitabilidade da indignação, da manifestação, do protesto e da greve dos trabalhadores portugueses e ao martírio e desespero dos micro, pequenos e médios industriais e comerciantes.

É absolutamente fatal a luta de massas pela simples razão de serem as massas populares as primeiras e principais afetadas, e de que maneira, pela especulação financeira e por uma política ao serviço dessa especulação protagonizada por PSD, CDS e PS. O povo português, no último ato eleitoral, não deu um tiro no pé, despoletou uma bomba potente sob os dois pés. Tal como no inicio do governo de Sócrates, as pessoas em geral, querem e vão acreditando nas “bondades” das palavras dos políticos de direita no poder. Mas rapidamente se desvanecerá a ilusão e a constatação da realidade assumirá a forma de autêntico pesadelo. Subsistirá a luta, a resistência, a persistência do «Acordai / acordai / raios e tufões / que dormis no ar / e nas multidões / vinde incendiar / de astros e canções / as pedras do mar / o mundo e os corações».

 

 

 Guidões, 4 de julho de 2011,

Atanagildo Lobo

 

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