Entre Trancoso e Meda existe uma pequena aldeia chamada «Casas». A aldeia seria simplesmente uma aldeia não fossem os cães resolverem fazer greve às cores e decidirem vestirem-se de preto. O luto carregado que aparentam poderá ser simplesmente símbolo da peleja entre Dom Rodrigo e Dom Gonçalo pela bela Rosa no alto do castelo de Longroiva que, segundo voz avalizada, daria uma linda história de amor, ou, resultará antes da morte anunciada de todas aquelas aldeias à volta, que hoje definham lentamente, pois os nossos inteligentes governantes retiraram-lhes as escolas, os centros de saúde, os meios de transporte, as forças policiais. E, claro, aqueles que puderam emigrar para outras regiões e para o estrangeiro, assim o fizeram, tendo ficado os velhos, cujo desaparecimento levará inexoravelmente à morte das povoações.

Destas pequenas impressões em tempo de férias, as possíveis nos tempos que correm, sobressai uma coisa que já não é de agora. Portugal tem potencialidades: com o que tem e com o que poderá fazer. E uma evidência: se não o faz, a culpa não é do povo, e sim da má política e dos maus políticos que têm estado e estão à frente dos desígnios nacionais. Logo ali, em Carrazeda de Ansiães, há um castelo. Surpreende. Uma muralha ciclópica, um perímetro enorme, a cidadela no seu interior, no alto uma paisagem deslumbrante. Vê-se até ao outro lado do Douro, que se adivinha em baixo, no prolongamento das gargantas e arribas, com o castelo de Numão, altaneiro, vigilante e defensor do território. E o que se poderá dizer da bela Casteição? Um pequeno núcleo medieval, com pelourinho, tribunal, cadeia e habitações muito velhinhas. No alto, junto ao marco geodésico, a bandeira portuguesa, altiva e aprumada, esvoaça com força ao sabor do vento, como se estivesse a defender o que resta da nossa soberania. Dali, contempla-se uma vista espantosa sobre o vale da ribeira de Teja. Perto da Matriz, a velhinha sai do lá do lá da rua e juntou-se à outra velhinha que connosco conversava. Ambas sorriam e se eu fosse pintor, ali teria matéria para o mais belo quadro do mundo. «No tempo em que criei o meu primeiro filho, havia cinquenta crianças na escola, hoje não há uma e nem sequer temos escola», disse uma delas e voltou a sorrir. «Aqui vivemos à volta de sessenta, quando morrermos morre Casteição», arrematou a outra. Apesar da frase trágica, também esta terminou risonha. Decididamente, Casteição era a terra dos sorrisos e a melhor arma contra o abandono e a desertificação da terra era o sorriso. Com sorrisos nos despedimos, embora revolvidos em indignação por as coisas serem assim, quando poderiam ser bem diferentes. A mesma sensação de desamparo e despovoamento obtivemos em Algozinho, acima de Mogadouro onde, volta dada à aldeia e à igreja, não se viu viva alma. Em Foz Côa constata-se que, apesar do maná e riqueza das gravuras rupestres e do novo museu, muito temos ainda a aprender com espanhóis e franceses na divulgação, arrumação e amostra das ofertas turísticas. Mais sensibilizado se fica com o “museu do território e da memória” do Freixo de Espada à Cinta ou com o “museu do ferro” em Moncorvo, exemplos de pequenos museus, mas com uma alma grande e generosa. E sempre, sempre maravilhado pelo espólio e alinho do velho e sempre novo museu do “abade de Baçal”, em Bragança, um exemplo.

A total incompetência dos nossos governantes do triunvirato do arco do poder, PSD, PS e CDS, é absolutamente notória na política para a região do Tua. Construir uma barragem na foz do Tua é um ato de autêntico vandalismo, um crime de lesa pátria, um abominável desprezo pelas populações ribeirinhas e por Portugal. A construção de uma barragem na foz do Tua aniquila um rio, porque elimina a sua diversidade. Suprime uma linha de caminho de ferro que servia as populações ribeirinhas – o único meio de transporte com qualidade para aquelas populações na ligação a Mirandela e ao Porto. Por fim, a linha de caminho de ferro tinha um potencial turístico enorme. Poderia facilmente candidatar-se a património da humanidade, da Europa, ou qualquer outra coisa semelhante. Os panoramas que se deslumbram, curva após curva, no seu trajeto são verdadeiramente fabulosos a partir de certa altura em que, entrelaçados, o rio e o caminho de ferro, entre escarpas e desfiladeiros gigantes, desenvolvem uma viagem alucinante num quadro único. Tudo em troca da produção de alguns mais KW de eletricidade e dos interesses dos senhores do betão, sem qualquer resultado para as famílias e empresas, uma vez que a energia está cada vez mais cara. Esta história encontra-se magistralmente contada no documentário “Pare, Escute e Olhe…” de Jorge Pelicano que já vai no oitavo galardão internacional. “A vida é feita de pequenos nadas” e um desses nadas, foi encontrar o Ti Abílio, protagonista do documentário. Lá estivemos na Estação da Ribeirinha, mas o Ti Abílio não estava, como nos informou uma familiar. A minha tia, mais atrevida, cobiçando uns pêssegos majestosos, que só com o olhar se comiam, pediu meia dúzia. «Ó minha senhora, leva uma saca. Estão aqui, é para quem quiser.» Mais acima, à saída do Lucky Luke, o bar da terra, outro dos cenários do filme de Pelicano, aparece-nos o Ti Abílio. Uma abraço, a solidariedade, a cumplicidade e o reconhecimento em poucos minutos, é quanto basta para cimentar a unidade. «Afinal podiam ir de férias para outro sítio, e vieram aqui, a este fim do mundo».

No Cachão bebeu-se água. Numa mesa do café um homem e duas mulheres sorriam. Nessa altura os viajantes ainda não sabiam que iriam passar em Casteição. Meteu-se conversa. Eram comunistas planeavam a ida à Festa do Avante. Afinal existiam referências comuns. Mendo, Arnaldo Mesquita, Fernando Pilão, eram referências para aquela gente. E mais uma, o deputado do PCP eleito pelo círculo eleitoral de Braga, Agostinho Lopes, meu camarada, amigo e ilustre conterrâneo de Guidões. Com ele trabalharam durante anos, quando Agostinho Lopes era responsável pela organização do PCP em Trás-os-Montes. Quando lhes disse que era da minha terra, Guidões, também sorriram e uma, a Fernanda Freitas, disse denotando muita afeição e saudade: «entreguem-lhe um grande abraço nosso». É exatamente como diz a canção do Sérgio Godinho: «a vida é feita de pequenos nadas».

Atanagildo Lobo

Guidões, 14 de agosto de 2011

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