Ano 2011
«A Vida é feita de pequenos nadas»

Destas pequenas impressões em tempo de férias, as possíveis nos tempos que correm, sobressai uma coisa que já não é de agora. Portugal tem potencialidades: com o que tem e com o que poderá fazer. E uma evidência: se não o faz, a culpa não é do povo, e sim da má política e dos maus políticos que têm estado e estão à frente dos desígnios nacionais. Logo ali, em Carrazeda de Ansiães, há um castelo. Surpreende. Uma muralha ciclópica, um perímetro enorme, a cidadela no seu interior, no alto uma paisagem deslumbrante. Vê-se até ao outro lado do Douro, que se adivinha em baixo, no prolongamento das gargantas e arribas, com o castelo de Numão, altaneiro, vigilante e defensor do território. E o que se poderá dizer da bela Casteição? Um pequeno núcleo medieval, com pelourinho, tribunal, cadeia e habitações muito velhinhas. No alto, junto ao marco geodésico, a bandeira portuguesa, altiva e aprumada, esvoaça com força ao sabor do vento, como se estivesse a defender o que resta da nossa soberania. Dali, contempla-se uma vista espantosa sobre o vale da ribeira de Teja. Perto da Matriz, a velhinha sai do lá do lá da rua e juntou-se à outra velhinha que connosco conversava. Ambas sorriam e se eu fosse pintor, ali teria matéria para o mais belo quadro do mundo. «No tempo em que criei o meu primeiro filho, havia cinquenta crianças na escola, hoje não há uma e nem sequer temos escola», disse uma delas e voltou a sorrir. «Aqui vivemos à volta de sessenta, quando morrermos morre Casteição», arrematou a outra. Apesar da frase trágica, também esta terminou risonha. Decididamente, Casteição era a terra dos sorrisos e a melhor arma contra o abandono e a desertificação da terra era o sorriso. Com sorrisos nos despedimos, embora revolvidos em indignação por as coisas serem assim, quando poderiam ser bem diferentes. A mesma sensação de desamparo e despovoamento obtivemos em Algozinho, acima de Mogadouro onde, volta dada à aldeia e à igreja, não se viu viva alma. Em Foz Côa constata-se que, apesar do maná e riqueza das gravuras rupestres e do novo museu, muito temos ainda a aprender com espanhóis e franceses na divulgação, arrumação e amostra das ofertas turísticas. Mais sensibilizado se fica com o “museu do território e da memória” do Freixo de Espada à Cinta ou com o “museu do ferro” em Moncorvo, exemplos de pequenos museus, mas com uma alma grande e generosa. E sempre, sempre maravilhado pelo espólio e alinho do velho e sempre novo museu do “abade de Baçal”, em Bragança, um exemplo.
A total incompetência dos nossos governantes do triunvirato do arco do poder, PSD, PS e CDS, é absolutamente notória na política para a região do Tua. Construir uma barragem na foz do Tua é um ato de autêntico vandalismo, um crime de lesa pátria, um abominável desprezo pelas populações ribeirinhas e por Portugal. A construção de uma barragem na foz do Tua aniquila um rio, porque elimina a sua diversidade. Suprime uma linha de caminho de ferro que servia as populações ribeirinhas – o único meio de transporte com qualidade para aquelas populações na ligação a Mirandela e ao Porto. Por fim, a linha de caminho de ferro tinha um potencial turístico enorme. Poderia facilmente candidatar-se a património da humanidade, da Europa, ou qualquer outra coisa semelhante. Os panoramas que se deslumbram, curva após curva, no seu trajeto são verdadeiramente fabulosos a partir de certa altura em que, entrelaçados, o rio e o caminho de ferro, entre escarpas e desfiladeiros gigantes, desenvolvem uma viagem alucinante num quadro único. Tudo em troca da produção de alguns mais KW de eletricidade e dos interesses dos senhores do betão, sem qualquer resultado para as famílias e empresas, uma vez que a energia está cada vez mais cara. Esta história encontra-se magistralmente contada no documentário “Pare, Escute e Olhe…” de Jorge Pelicano que já vai no oitavo galardão internacional. “A vida é feita de pequenos nadas” e um desses nadas, foi encontrar o Ti Abílio, protagonista do documentário. Lá estivemos na Estação da Ribeirinha, mas o Ti Abílio não estava, como nos informou uma familiar. A minha tia, mais atrevida, cobiçando uns pêssegos majestosos, que só com o olhar se comiam, pediu meia dúzia. «Ó minha senhora, leva uma saca. Estão aqui, é para quem quiser.» Mais acima, à saída do Lucky Luke, o bar da terra, outro dos cenários do filme de Pelicano, aparece-nos o Ti Abílio. Uma abraço, a solidariedade, a cumplicidade e o reconhecimento em poucos minutos, é quanto basta para cimentar a unidade. «Afinal podiam ir de férias para outro sítio, e vieram aqui, a este fim do mundo».
No Cachão bebeu-se água. Numa mesa do café um homem e duas mulheres sorriam. Nessa altura os viajantes ainda não sabiam que iriam passar em Casteição. Meteu-se conversa. Eram comunistas planeavam a ida à Festa do Avante. Afinal existiam referências comuns. Mendo, Arnaldo Mesquita, Fernando Pilão, eram referências para aquela gente. E mais uma, o deputado do PCP eleito pelo círculo eleitoral de Braga, Agostinho Lopes, meu camarada, amigo e ilustre conterrâneo de Guidões. Com ele trabalharam durante anos, quando Agostinho Lopes era responsável pela organização do PCP em Trás-os-Montes. Quando lhes disse que era da minha terra, Guidões, também sorriram e uma, a Fernanda Freitas, disse denotando muita afeição e saudade: «entreguem-lhe um grande abraço nosso». É exatamente como diz a canção do Sérgio Godinho: «a vida é feita de pequenos nadas».
Atanagildo Lobo
Guidões, 14 de agosto de 2011
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