A intervenção de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, no comício da festa do Avante é notável, merecendo profunda reflexão. Contém forte conteúdo ideológico, demonstrativo da razão do posicionamento político comunista ao longo das últimas décadas.

É um « descaramento inacreditável… ultrapassando tudo o que era imaginável e todos os limites da desfaçatez e do cinismo … ver o primeiro-ministro Passos Coelho com ar pungente a anunciar um descarado roubo nos salários dos trabalhadores e reformados, em nome do combate ao desemprego! », brada Jerónimo de Sousa de forma contundente, com lucidez, objectividade e clarividência para os perigos da manutenção da actual política.

Estas políticas, não são realizadas por incompetentes e impreparados. São oriundas de mestres na arte da exploração dos trabalhadores e dos povos, para servir os senhores do dinheiro, que fizeram o «tirocínio nas escolas do pensamento neoliberal, nos alcatifados da União Europeia e nas mais afamadas administrações dos grupos económicos e das grandes instituições financeiras, cujas portas estão sempre abertas a um regresso, depois de uma “sacrificada comissão de serviço público”. Eles são peritos na arte da mistificação.

Eles nunca se enganam na receita e o feitiço nunca se vira contra eles, nem contra os interesses que servem, mas contra os trabalhadores, contra o povo.» Assim, para 2013, segundo o seu pensar, matutam um novo plano com as mesmas soluções, que apenas promovem o empobrecimento dos portugueses, o enriquecimento dos senhores dos grandes interesses económico-financeiros, conduzindo o país à ruína e à capitulação.

A perpetuação do roubo de dois salários para os trabalhadores da administração pública e para os reformados, e de um salário para o sector privado, anunciados pelo primeiro-ministro, é uma atitude inclassificável, revoltante. Obrigar quem apenas vive do seu trabalho a pagar mais sete pontos percentuais do seu salário para a segurança social é sobrecarregar a carga fiscal de quem trabalha com um novo imposto e contribuir para mais exploração e desemprego e para um cada vez maior empobrecimento dos portugueses em geral. 

O discurso de Jerónimo de Sousa é de facto extraordinário desmascarando totalmente esta União Europeia do grande capital, «…cada vez mais neoliberal, militarista e federalista, que dá razão a todos os que como o PCP sempre afirmaram que os sonantes discursos da coesão social e económica e da solidariedade não passavam de chavões vazios de conteúdo…» assim como o constante bombardeio de « horas e horas de notícias sobre esta e aquela negociação, sobre a necessidade de salvar o Euro, sobre esta e aquela medida que o BCE pode ou não adoptar, como o engodo dos Eurobonds, ou ainda sobre a importância da unidade da Europa, da solidariedade, da coesão, contra os nacionalismos. Pura hipocrisia!

É que tudo o que se está a discutir nos corredores de Bruxelas visa apenas uma coisa: criar as condições para aprofundar as políticas de exploração dos trabalhadores, para se poder continuar a alimentar os mega bancos, para se manter o Euro como instrumento de domínio económico dos mais fortes sobre os mais fracos, no fundo para reforçar ainda mais o carácter neoliberal e federalista da União Europeia.»

A saída da crise já há muito é apontada pelo PCP que, no plano internacional, passará pelo fim das imposições supranacionais do Pacto de Estabilidade, por uma cooperação entre Estados soberanos iguais em direitos, pelo direito dos povos de decidirem dos seus próprios destinos e exercerem plenamente a soberania que neles reside, e no plano nacional, por um processo de renegociação da dívida pública; pela nacionalização da banca recuperando para as mãos do Estado um instrumento essencial para a dinamização económica e o apoio às pequenas e médias empresas; pelo apoio à produção nacional, à produção agrícola, ao mar e suas actividades; pela reposição dos direitos e rendimentos espoliados e o aumento dos salários e das pensões de reforma, indispensável à dinamização do mercado interno; por uma mais justa repartição da riqueza com a valorização do trabalho, a protecção social e a justiça social; pela efectiva taxação da banca, da especulação financeira, do património de luxo e pelo fim dos paraísos fiscais para onde vão milhões de euros da riqueza produzida no nosso país; pelo reforço dos serviços públicos e das funções sociais do Estado e pela defesa da Constituição da República.

É de realçar no discurso de Jerónimo de Sousa a efectiva e real possibilidade de dar vida a uma alternativa. O avanço da luta traduziu-se no alargamento da convergência de acção e criou condições para construir uma alternativa política e realizar uma política alternativa, sendo o alargamento da influência do PCP um factor incontornável na criação das condições da sua concretização. Conclui assim Jerónimo : «Por isso, nos dirigimos aos portugueses que aspiram à viragem e à mudança na vida nacional, dizendo-lhes: apoiem o PCP!

Dêem força ao PCP e a alternativa surgirá!» E, reforçando o apelo, clama o secretário-geral do PCP de que o país precisa de travar o passo a esta política suicida e de saque aos trabalhadores e ao povo! Pelo que « a economia tem que estar ao serviço das pessoas, do desenvolvimento do país, dos nossos jovens, do nosso povo! » 

Atanagildo Lobo

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