« E lá vem a malta toda para a rua / dizer unicidade sindical / à voz de todos nós juntas a tua / para bem de Portugal / lutamos todos contra o capital.»

   Assim foi no passado 5 de Junho de 2008 conforme o poema de Ary dos Santos na colossal manifestação promovida pela CGTP-IN. A grande alameda, Liberdade de seu nome, virou palco, coliseu, arena da luta titânica dos explorados contra os exploradores, do trabalho contra o capital, da liberdade contra a opressão. Do Marquês aos Restauradores, abarrotou a parada de mulheres, homens e jovens que insatisfeitos, amargurados e descontentes com os benefícios e os obséquios desta política ao grande capital, gritavam as palavras de ordem e de combate. Muitos, inconformados com o «embuste» em que caíram há 3 anos quando acreditaram nas promessas de Sócrates, hipócritas e falaciosas, reconhecem-no hoje, juravam luta e mais luta. Muitos outros, que não se deixaram levar, já preparavam o futuro, o plenário da empresa, a reunião de alunos na escola, a greve na cantina, as eleições da comissão de trabalhadores, as próximas manifestações a nível distrital.

Continua o poema de Ary : « um operário leal nunca é levado / pelas falinhas mansas dos burgueses / por nós termos calado no passado / é que fomos enganados / e à má fila tantas tantas vezes».

Todos estavam conscientes de uma coisa: a revisão do código do trabalho conforme pretende o governo é extraordinariamente gravosa para os trabalhadores. Para além da introdução da nova forma de despedimento por inadaptação e da flexibilidade dos horários, admitindo 50 horas de trabalho por semana sem pagamento do trabalho suplementar, através da definição do horário em termos médios, por períodos até um ano, acresce essa pretensão do governo absolutamente inaceitável da caducidade dos contratos colectivos. Só esta medida, desbaratando e aniquilando aquilo que constitui o acervo  fundamental de direitos dos trabalhadores dos diversos sectores da actividade produtiva, serviços e comércio por um lado, e o corpo residual, patrimonial e histórico das relações jurídico-laborais, filho da revolução de Abril e das árduas batalhas travadas passo a passo por outro, justifica o claro NÃO dos trabalhadores e sindicatos. NÃO aclamado transversalmente por todas as classes profissionais que, engrossando mais e mais essa torrente gigantesca de protesto e contestação, em 5 de Junho último deu voz aos portugueses em geral e se traduziu, como referiu Bernardino Soares – presidente do grupo parlamentar do PCP na Assembleia da República – na verdadeira moção de censura à política do governo.

Todos sabemos que José Sócrates deve a sua vitória às promessas de «esquerda» que não cumpriu, nomeadamente à garantia da criação de 150 000 novos postos de trabalho e à jura de baixar os impostos. Ao contrário, realizou o seu governo o que não prometera. Não valerá a pena mais uma vez descrever a ofensiva socrática que se traduz perfeitamente na constatação em Portugal do maior fosso europeu entre os mais ricos e os mais pobres.

Por isso, quando Vieira da Silva alude à necessária competitividade das empresas sabemos que pretende dizer mais facilidade nos despedimentos; quando se pronuncia por melhores trabalhadores significa salários mais baixos e quando vem falar em aumento de produtividade quer dizer flexibilidade de horários de trabalho e polivalência de funções.

Prosseguindo com Ary « um operário leal nunca é levado / com falas de caixeiros-viajantes / nem se deixa levar por um pedante / que o quiser fazer banana / um operário leal nunca se engana».

O primeiro-ministro vai mais longe. Hoje regressa às "promessas de esquerda" como factos consumados. Não se limita a realizar promessas que depois olvida. Agora atribui subsídios que nem paga. No inicio deste ano, sob a forma de pagamento integral do kit e respectivas bombas infusoras de insulina, para apoio dos diabéticos, deveria o governo estar a atribuir este subsídio conforme garantira no ultimo trimestre de 2007. Mas até agora nem um cêntimo. Por outro lado, a partir de Abril deste ano, todos os idosos que recebem o complemento de reforma deveriam passar a receber 400 euros por mês. Até hoje, muitos milhares desses idosos ainda não receberam sequer um cêntimo a mais.

É pois urgente mudar de rumo, mudar de política.

Concluindo com Ary: « Não basta que se fale em socialismo / um punho sem martelo não é punho / e um braço sem foice é sinapismo / que não modifica o cunho / da medalha sinistra do fascismo».

A resposta será sempre a mesma. A luta. A luta de massas pois «…chega para nós a Primavera / dos cravos fica apenas a lembrança / a luta está aqui à nossa espera / entre o beco da quimera / e a rua projectada ali à esperança.».E «…lá vem a malta toda para a rua…».

 

Atanagildo Lobo.