Já passaram seis meses desde que Ana Filipa Ferreira recebeu de braços abertos e com um grande sorriso novos pulmões. Desde pequena a Filipa estava habituada a “ser diferente”, no entanto os sucessivos internamentos e a falta de ar nunca lhe tiraram a “vontade de viver”.

Depois de mais de 17 anos à espera, o telefone tocou e Filipa, como costuma ser tratada, não olhou para trás. Fez as malas e viajou a toda a velocidade para Lisboa. A equipa médica e os novos pulmões aguardavam. Foi no Domingo de Ramos e agora, seis meses passados, que esta jovem da Trofa, com Fibrose Quística, mas com uma “nova vida”, falou da experiência na primeira pessoa.

“Descobri que tinha Fibrose Quística aos cinco anos”, lembrou, apesar de não lamentar o facto de ter a doença que fez com que passasse grande parte do seu crescimento rodeada de médicos e medicação. “Não posso dizer que nunca fui feliz…apesar da doença fui e sou muito feliz”.

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“Sempre tive plena consciência de que era diferente dos outros, que os outros podiam sair à noite, podiam frequentar bares e eu não, que podiam dormir em casa uns dos outros e eu não podia porque tinha de tomar a medicação, mas nunca me senti mal. Os meus amigos nunca me discriminaram e esse foi o primeiro passo para eu reagir muito bem à doença”, recordou.

A família, a turma e os amigos foram o grande apoio de Filipa e, tal como ela, nunca desistiram e acompanharam a sua vida, as suas dificuldades, o transplante e a recuperação sempre com uma grande expectativa. “Tinha muita gente a torcer por mim e eu sabia que se desistisse para eles também ia ser uma desistência”.

Filipa sabe que não conseguiu esta “vitória” sozinha: “Não consegui sozinha, agradeço aos meus amigos, Miguel, Hélder e à Divine, esses três foram a minha vida, à minha minha turma fantástica, ao António que também é um amigo espectacular, à Susana que foi uma pequeninha que conheci”.

“A vida vale a pena” e “só temos uma”, por isso, e mesmo com Fibrose Quística, Filipa decidiu “aproveitá-la ao máximo”.

Mas a doença começou a avançar mais rápido do que o previsto e há dois anos que a vida da Filipa se resumia a internamentos, “três semanas no Hospital e três semanas em casa”. O ar começou a ser pouco e Filipa foi obrigada a andar com uma garrafa de oxigénio para todo o lado. Quanto aos antibióticos, já não a ajudavam muito. O transplante era uma necessidade e a única solução. “O médico disse que estava a começar a ficar sem soluções de antibióticos e que entretanto teríamos que tratar do transplante, no ano passado os internamentos começaram a ser consecutivos e eles disseram que tínhamos que avançar”, contou.

Seguiram-se as incursões a Lisboa, ao Hospital de Santa Marta, para fazer exames e tratamentos. Filipa “sentia que havia uma oportunidade de melhorar, que podia correr mal, mas no fundo toda a gente dizia que ia correr bem”.

Com “esperança” Filipa, a família e os amigos esperaram a chamada dos médicos. No Domingo de Ramos, o telemóvel da mãe tocou e “todos fizeram silêncio”. “A doutora disse que era para ir para Lisboa”, estavam todos preparados e os pulmões não podiam esperar.

A família rumou ao Hospital de Santa Marta, pai, mãe, irmão. Os amigos foram avisados pelo caminho. Todos ficaram apreensivos, menos Filipa que foi “todo o caminho a sorrir”.

“Só na segunda-feira ao final do dia é que fui transplantada, porque houve um atraso do dador e há muitos exames que temos que fazer para saber se somos compatíveis ou não”, explicou. Estavam dois à espera do transplante, a menina e outro senhor, mas “por prioridade de idades”, Filipa foi a primeira a receber os pulmões.

Durante pelo menos dez horas tudo era uma incógnita.

Nunca tive vontade de desistir”

Depois do transplante Filipa renasceu e começou realmente a respirar. “Quando acordei não reconheci os meus pais, ainda estava muito sedada, só conheci o meu irmão”, afirmou com certeza de que foi o “único” que reconheceu.

Nas primeiras semanas “é um avançar e um retroceder muito grande”, chegou a tirar o tubo ligado ao ventilador no segundo dia de manhã, mas à tarde voltou a colocá-lo. “Quando tiraram o tubo foi uma imensidão de ar a entrar, não sabia o que fazer a tanto ar”, recordou a sorrir. A poucos meses de fazer 18 anos, Filipa descobriu o que era respirar. Passou fome e sede, não podia falar, nem andar, mas “nunca” teve “vontade de desistir”. “Nos primeiros tempos pensamos: Fiz o transplante, mas parece que estou pior, mas é precisa muita dedicação”, confidenciou.

Esteve dois meses e meio em Lisboa, mas ninguém se esqueceu dela, o número de visitantes no seu blogue ultrapassou todas as expectativas e até vigílias fizeram para pedir as melhoras da jovem que todos admiravam pela sua “força e coragem”. “Não vou dizer que achei bem, mas gostei e quando me disseram que houve a segunda vigília eu decidi aparecer através da Internet. Foi muita gente que se juntou, a divulgação do blogue, os comentários, o apoio dos amigos e família, tudo me ajudou”, recordou, agradecendo o apoio e interesse de todos.

Filipa chegou à Trofa e muitos pensaram que tinha Gripe A ou alguma doença contagiosa, mas nada de errado se passa com esta jovem, agora com 18 anos. Filipa usará máscara durante o primeiro ano de transplante, mas depois, sempre que tiver em locais públicos, com muitas pessoas terá de usá-la também para evitar uma recaída. “Às vezes na rua ia a passar e as pessoas afastavam-se de mim, mas a coisa que mais me admirou foi a faixa etária de pessoas que me discriminam, eu pensei que seriam os adolescentes, mas não, por exemplo na escola vejo que são os professores que fazem comentários”, contou, surpreendida com os olhares “indiscretos” de muitas pessoas.

Filipa começou a viver de uma forma diferente e com muito mais “liberdade”. Juntou-se à Juventude Socialista e foi com os camaradas e graças a Joana Lima, a actual presidente da Câmara Municipal da Trofa, que conheceu o seu ídolo, José Sócrates, o Primeiro Ministro de Portugal.

“Pertenço à Juventude Partidária Socialista e para mim as eleições apareceram na melhor fase da minha vida, em que podia ir para as campanhas com eles. Sou grande amiga da Joana Lima e ela sabendo que o meu sonho era conhecer o Sócrates, a primeira coisa que fez foi chamar a atenção do Engenheiro José Sócrates. Nunca pensei que ele ia dar a atenção que deu e começou a falar do irmão, que também tem o mesmo problema. Quando ele me disse força Filipa, ouvir isso do Primeiro-Ministro é uma coisa de outro mundo”, lembrou.

Filipa Ferreira teve “a oportunidade de ter uma segunda vida”, renasceu depois do transplante. Não pensa no futuro, apenas no presente e no que pode e não pode fazer para “conservar os pulmões”.

“Eu quero dizer que vivi, lutei, posso dizer que esta foi a maior vitória e se calhar a única, que merece toda a minha força e coragem”, concluiu.

O que é Fibrose Quística?

A Fibrose Quística engloba-se num grupo de patologias denominadas D.P.O.C (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica) que se caracterizam por haver uma obstrução crónica das vias aéreas, diminuindo a capacidade de ventilação. O que acontece é que nos pulmões, as secreções acabam por obstruir a passagem de ar, retendo bactérias, o que pode conduzir ao aparecimento de infecções respiratórias. A doença é genética e também conhecida como Mucoviscidose.