A ostentação da superioridade moral, de muitos portugueses que se consideram da esquerda política portuguesa, com a sua presunção do pensamento «politicamente correto», origina que todos aqueles que não são de esquerda ou não se reveem nas suas propostas, não se manifestem publicamente, para não terem de ouvir epítetos pouco dignificantes, até porque se são pessoas otimistas, dizem de imediato que estão ao lado do poder. Muitas pessoas que se consideram de esquerda, tentam esconder que são pessimistas e estão sempre na oposição, são os profetas da desgraça, que semeiam desânimo e descrença.
Talvez por tudo isto, nas sondagens a esquerda ganhe quase sempre e depois, por vezes, perde na contagem dos votos, como aconteceu, recentemente, nas últimas eleições britânicas. De qualquer maneira, António Costa também não descola das sondagens (foi o argumento para derrubar o seu camarada António José Seguro), mesmo em «terreno» favorável, como são os tempos atuais, em que o governo centro-direita e de direita, teve de governar, como todos sabem, em austeridade, provocado pelo despesismo, excessivo e sem controlo, do governo «socratista», que teve de pedir a intervenção externa, da «troika».
Aliás, o preso da cela 44, do Estabelecimento Prisional de Évora, ainda hoje, tem uma legião de seguidores «fundamentalistas», que mesmo nas comemorações do Dia de Portugal, colocaram outdoors, de grandes dimensões, com uma fotografia do antigo governante e os dizeres: José Sócrates, sempre! Provavelmente, este tipo de atuação, associado ao protagonismo de José Sócrates, que segue uma linha de argumentário, que reforça a mitologia do «animal feroz», faz entalar António Costa, permanentemente. O palco tem de ser de José Sócrates, o ator principal tem de ser ele! Com camaradas assim, António Costa não precisa de ter adversários, muito menos inimigos.
António Costa, não descola, nas sondagens, nem descolará, pois tem menos palco do que Sócrates, e até tem menos tempo de antena do que ele, para além de Portugal estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos atrás, como o próprio António Costa já disse, recentemente. Portugal recuperou em diversas áreas, para tristeza de alguns.
Os portugueses estão a conseguir, por exemplo, recuperar uma boa parte do património que tinham antes do período mais grave da crise financeira, que culminou no pedido de resgate às instituições internacionais. Os portugueses começam a sentir que valeu a pena o sacrifício que teve de ser feito! O património das famílias já retomou mais de metade do que era em 2010, graças a um balanço positivo entre ganhos e redução das dívidas. No ano passado, o capital imobiliário dos portugueses aumentou pela primeira vez nos últimos três anos.
Não é, nem vai ser fácil a campanha eleitoral para António Costa, pois vai ter sempre o «figurão» de José Sócrates a tirar-lhe o protagonismo que ele tanto precisa, para se apresentar ao eleitorado desligado do «socratismo». Mas, como ele também esteve envolvido, chegou a ser o número 2 do governo socialista de José Sócrates, vai ser impossível, como se está a verificar, aparecer com uma imagem limpa, desse passado que é para esquecer.

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