As águas calmas do rio Ave na Barca da Trofa não permitem imaginar a violência do combate ali travado há 200 anos, quando a população se opôs ao avanço dos invasores franceses que se dirigiam para o Porto.

Naquele local, onde existia uma barca que fazia a travessia mas também era possível passar o rio a vau, uma coluna militar comandada pelo general Soult enfrentou a oposição da Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado, liderada pelo capitão Luís Carneiro.

A pequena força de populares armados, apoiada por um grupo de militares milicianos e dispondo apenas de dois pequenos canhões, impediu a passagem dos franceses, que foram obrigados a subir o rio até à Ponte de Lagoncinha, onde mudaram de margem.

“Avançavam para o Porto cerca de 25 mil franceses, dos quais Soult comandava 18 mil, que foram divididos em três colunas a partir de Braga”, afirmou Gilda Pinto, responsável pela Divisão de Cultura da Câmara da Trofa, em declarações à Lusa.

A contribuição da Trofa para a defesa do território nacional ocorreu em finais de Março de 1809, impedindo a progressão de uma das três colunas em que tinha sido dividido o contingente militar francês que avançava de Braga para o Porto.

“A minha coluna do centro viu-se detida na Barca da Trofa pelo inimigo”, refere o general francês nas suas memórias, acrescentando que a força militar “teve que subir o rio” até à Ponte de Lagoncinha.

A valentia da população local atrasou por algumas horas a progressão dos invasores, que, depois de conseguirem atravessar o rio numa ponte a montante, acabaram por acampar na Trofa, em Lantemil e no Souto de Bairros.

Este acampamento ficava a poucas centenas de metros da casa onde o general Nicolas Soult pernoitou de 25 para 26 de Março de 1809, como se pode ler numa placa colocada na fachada principal.

Do outro lado da rua, fica a casa de José Moreira, escrivão da Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado, que foi severamente torturado e morto pelos franceses, depois de descobrirem que guardava armas no celeiro.

O seu nome consta da lista inscrita num monumento de homenagem aos 10 “heróicos bougadenses” que morreram nos confrontos com os franceses, erguido em 1999 pela Junta de Freguesia de Santiago de Bougado.

As tropas francesas tinham entrado pela fronteira de Chaves e chegado a Braga a 20 de Março, onde o comandante militar ordenou que o avanço para o Porto fosse feito em três colunas.

Os militares invasores chegaram à zona da Trofa a 23 de Março e, segundo as memórias do general Soult, saíram quatro dias depois, existindo registos de que, a 28 de Março, estavam nos arredores do Porto.

Dois séculos mais tarde, na Trofa, ainda se celebra a data em que um punhado de agricultores armados, como lhes chamava o general Nicolas Soult, impediram o avanço do poderoso exército francês.