A espada com que o capitão Luís Carneiro enfrentou os invasores franceses na Barca da Trofa, em 1809, é a única recordação que resta hoje do homem que obrigou a recuar o general Soult, atrasando o avanço para o Porto.

A arma, preservada pela família, está colocada em evidência numa parede, logo à entrada da casa onde viveu o capitão que comandava a Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado em finais de Março de 1809, quando o exército francês tentou atravessar o rio Ave na zona da Trofa. 

“A casa sempre esteve na nossa família. O capitão vivia aqui e, por isso, a espada ficou cá. A família sempre a conservou”, disse à Lusa Manuel Loureiro, descendente directo em sétima geração de Luís Carneiro e actual proprietário da casa.

“Até à morte do meu avô, esta foi sempre a Casa do Capitão”, recordou Maria Antónia, irmã de Manuel Loureiro, admitindo que a expressão praticamente já caiu em desuso actualmente.

O capitão Luís Carneiro liderou a Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado, uma pequena força de populares armados, contra uma coluna militar comandada pelo general Soult, impedindo a sua progressão.

Dispondo apenas de dois pequenos canhões e o apoio de um reduzido grupo de militares milicianos, os portugueses defenderam a Barca da Trofa e obrigaram os invasores franceses a subir o Ave até à Ponte da Lagoncinha, onde conseguiram atravessar o rio.

As tropas acamparam no Souto de Bairros, mas o general Nicolas Soult foi pernoitar numa casa situada a algumas centenas de metros, que pertencia a Manuel Faria Carneiro.

“Nesta casa, de 25 para 26 de Março, pernoitou o Duque da Dalmácia – 1809”, refere uma placa colocada na frente da casa.

“O general ficou aqui só uma noite, mas as pessoas da casa ficaram muito bem impressionadas com os franceses, que não fizeram mal a ninguém”, afirmou à Lusa Júlia Amandia, actual proprietária da casa.

Apesar da imagem negativa que criou ao longo da sua marcha em território português, os invasores franceses também provocaram boa impressão numa farmácia situada na fronteira entre Trofa e Vila do Conde.

Os actuais proprietários da farmácia, fundada em finais do século XVIII, revelaram recentemente que os militares franceses passaram por lá em 1809 para levantar medicamentos, tendo tratado bem todas as pessoas que ali se encontravam.

Dessa altura, restam como recordação duas barretinas francesas, ainda na posse dos descendentes.

A breve passagem francesa pela Trofa em Março de 1809 provocou uma dezena de mortos, um dos quais José Moreira, que era escrivão da Companhia de Ordenanças.

Quando revistaram a sua casa, situada frente ao local onde o general Soult pernoitou, as tropas francesas encontraram armas escondidas no palheiro.

Como castigo, José Moreira, cujo nome consta da lista inscrita no Monumento da Barca da Trofa, foi severamente torturado até à morte.

Pouco depois, as tropas invasoras levantaram o acampamento e prosseguiram a marcha para o Porto.