Inês Torcato apresentou um desfile com vários elementos surpreendentes, no segundo dia do Portugal Fashion, a 24 de outubro, na Alfândega do Porto.

Já habituou a surpreender, mas desta vez o elemento que distinguiu a apresentação da coleção elevou Inês Torcato no panorama dos criadores de moda nacionais. A estilista trofense, filha de Júlio Torcato – um dos nomes mais conceituados nas criações de autor -, começou logo por intrigar quem marcou presença na imponente Sala do Arquivo da Alfândega do Porto. Razão? A tinta azul, que pintava o chão por onde, minutos mais tarde, passariam os modelos com uma coleção cem por cento sem género, ou seja, habilitada para ser vestida por homens e mulheres.

Esta premissa ajuda a dar peso a um dos temas desta coleção e que transita da última apresentada pela criadora, no último desfile do Portugal Fashion: “A declaração dos direitos humanos e a importância que isso deveria ter na nossa sociedade e infelizmente ainda não tem”.

Com os coordenados unisexo, Inês Torcato consegue “mostrar essa igualdade”.
Mas voltemos à tinta azul. Este elemento transporta-nos para um segundo tema associado à coleção, a sustentabilidade e o meio ambiente, remetendo para a “pegada ecológica” dos coordenados, feitos com “mais de 90 por cento de materiais reciclados, orgânicos, naturais ou vegetais”.

“Não existem fibras sintéticas, como o poliéster, a não ser o reciclado – fiz um contrato com dois produtores de novas fibras, a SEAQUAL (fabricado a partir de plásticos retirados do mar) e a NEW LIFE (a partir de garrafas de plástico)”, revelou a estilista.

Além disso, a tinta azul representa aquilo que mais entusiasmou Inês Torcato no mundo da moda, que, diz, “não é só roupa”. “Para mim, a moda é a verdadeira multimédia, no sentido em que mistura muitos média, o desenho e a pintura, a fotografia, o cinema, o vídeo, a música, a maquilhagem. Enfim, a moda engloba uma pluralidade de áreas artísticas de uma forma que nenhuma outra área o faz. Isto, para mim, é a parte mais bonita. Com a tinta no chão quis que existisse um registo, para além das fotografias e do vídeo, da passagem do desfile. E poder expor esse resultado na Alfândega, como uma obra de arte”, explicou.

Os tons nude, o azul, o preto, o cinzento e o branco foram as cores que dominaram no desfile, enquanto os folhos foram o foco da coleção.