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“Houve um incentivo para quem quisesse abandonar produção de leite”

“Houve um incentivo para quem quisesse abandonar produção de leite”

Na Trofa, 13 produtores desistiram do negócio do leite em 2018. O número foi divulgado por Jorge Oliveira, presidente da APROLEP – Associação dos Produtores de Leite de Portugal, que em entrevista ao NT explicou que este é o resultado da baixa compensação pela produção, com preços abaixo do que os agricultores consideram suficientes para manter as explorações. Além disso, “houve um incentivo para quem quisesse abandonar”, atestou o também responsável pela Quinta de Santo Isidro, em Santiago de Bougado.

O Notícias da Trofa (NT): Dois mil e dezoito foi um ano agitado para os produtores?
Jorge Oliveira (JO):
Dois mil e dezoito foi mais um ano difícil para os produtores de leite, por causa do preço baixo com que começámos o ano e que se manteve até agosto, quando ainda desceu mais até novembro e por causa dos limites à produção impostos aos produtores.

NT: Houve uma aparente subida do interesse dos consumidores pelo leite nacional. Quais as razões que levaram para esta tendência?
JO:
Em 2018, começou a rotulagem da origem do leite. Não temos dados diretos dos consumidores, mas verificámos que as principais marcas de distribuição tiveram a preocupação de mostrar bem, no rótulo, a origem do leite e num caso em que a cadeia de supermercados tem fábrica própria, veio à nossa região abastecer-se diretamente nos produtores, o que é positivo. Quando consumimos leite e produtos láteos portugueses, como queijo e iogurtes, ajudamos a economia e criamos empregos no meio rural.

NT: Apesar deste indicador, continuam a argumentar que os produtores se confrontam com os preços abaixo dos custos de produção e da média europeia. Sugeriram o aumento do preço em 2019, que feedback receberam das entidades competentes?
JO
: Até agora não tivemos qualquer resposta da indústria. Falta inovação, capacidade de criar valor, falta uma visão de futuro, vontade de dar esperança aos produtores. Esperamos que o Governo português tome uma posição clara na defesa dos produtores e do aumento do preço do leite, tal como já se manifestaram o ministro espanhol da agricultura e o governo regional dos Açores.

NT: Como têm os produtores respondido à insuficiente compensação pela produção do leite?
JO:
Temos feito um enorme sacrifício, temos adiado investimentos e não tiramos o pagamento do trabalho que temos a cultivar os campos e cuidar das vacas. Todos os anos abandonam produtores e no ano que passou esse abandono ainda foi maior, porque houve um incentivo para quem quisesse abandonar, porque a indústria não tinha capacidade para recolher o mesmo leite de anos anteriores.

NT: A APROLEP alertou para o abandono das produções. Que implicações terá esta realidade no futuro para o país?
JO:
Quando a produção agrícola e pecuária é abandonada, o país fica a depender da importação de alimentos, aumenta o défice comercial, o mundo rural fica abandonado e aumenta o risco de incêndios.

NT: E na Trofa, que efeitos têm tido estes fatores nos produtores locais?
JO:
Em 2018, no concelho da Trofa, tivemos a desistência de 13 produtores.

NT: Com a eleição do deputado do PAN, houve um aumento da visibilidade das manifestações ativistas pró-direitos dos animais. Os produtores sentem algum efeito no mercado decorrente destas ações?
JO:
Nos anos anteriores houve redução do consumo do leite, por dizerem que o leite faz mal à saúde, mas agora estabilizou, porque as pessoas começam a estar informadas e as autoridades de saúde e até o Presidente da República já vieram reafirmar que podemos beber leite como sempre, tal como queijo e iogurtes, até com benefício para a saúde. A carne continua a comer-se normalmente, qualquer pessoa sabe que o ser humano é omnívoro e precisa de uma alimentação equilibrada e completa. Os ativistas do PAN não conhecem a realidade e repetem coisas que viram na internet. Ao seguir a ideologia vegan, querem proibir toda a criação de animais domésticos, vacas, cavalos, porcos, tudo! São uma minoria que quer impor uma ditadura alimentar e fazem muito “barulho” nas redes sociais. É importante a sociedade e os consumidores pronunciar-se, não podem ser apenas os agricultores a defender a pecuária que existe há 10.000 anos desde o início da civilização.

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