A grave crise financeira, que quase todo o mundo começou a sentir há cerca de quatro anos, alastrou-se para a economia, com muitas falências a acontecer cada dia que passa e, também por isso, propagou-se para o social, criando um aumento significativo de situações de autêntica miséria e abandono social. É de “partir o coração”, saber que cerca de quatro milhões de portugueses, estão quase na situação de miséria. E nada se vê fazer, por parte dos poderes instituídos, com o objetivo de alterar esta grave situação. Bem pelo contrário! 

O homem é, deveria ser, a medida de todas as coisas. Toda a política que não tem como foco principal a felicidade e bem-estar do homem, não tem sentido. A política deverá ter como primeiro objetivo a dignidade, que é essencialmente um atributo da pessoa humana. Pelo simples facto de “ser” humana, a pessoa merece ter o primado de toda a atividade política, económica e financeira, embora esta sempre tenha demonstrado “não ter coração”. 

Os decisores políticos, não podem relativizar o conceito de dignidade da pessoa humana. Todo o ser humano, por o ser, é o maior valor, e este sobressai quando é mais violentado, agredido, ignorado ou negado. O princípio da dignidade da pessoa humana é um valor moral e espiritual inerente à pessoa e todo o ser humano é dotado desse preceito, que constitui o princípio máximo do estado democrático de direito. 

A pessoa humana, por estar doente e necessitar de uma consulta médica no posto de saúde, não perde a sua dignidade. Todo o país sabe, pois é notícia quase diária nos jornais e nas televisões, que para conseguir uma consulta médica, muitos portugueses têm de ficar ao relento, desde o dia anterior, à porta do posto médico. Mesmo assim, por vezes, não conseguem nesse dia a tão desejada consulta e terão de tentar de novo, mais uma vez. Uma nova esperança, construída ao relento de mais uma noite sofrida. Onde está a dignidade humana? Os comportamentos que não dignificam o ser humano, sobretudo os excluídos por vários motivos, desde o económico ao social, não podem existir na administração pública, que foi criada para servir o cidadão. É preciso, com urgência, resgatar o conceito de dignidade da pessoa humana, eliminando as descriminações, que acabam por reduzir a pessoa a mero “farrapo” humano.

As ações praticadas pelos poderes instituídos deverão ter como destinatário final o indefetível direito à felicidade do ser humano. Haja dignidade! Um país que tão maltrata os seus cidadãos, não tem vergonha! Mais grave ainda é, por ser um país avançado em termos de medicina, que até já faz consultas médicas à distância, por teleconferência, a doentes acamados em hospitais localizados em terras bem distantes do continente africano, mas não consegue tratar com dignidade os seus cidadãos menos afortunados em termos de saúde, e não só. É triste, e “parte o coração”, ver ao nascer do dia, concidadãos, débeis, vulneráveis e doentes, à porta de centros de saúde, ao frio e ao vento, na esperança de conseguirem uma simples consulta médica.

E mais um inverno está a chegar! É uma vergonha nacional; é uma vergonha para o país; é uma vergonha para todos nós!

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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