Conferência S. Vicente de Paulo em Santiago de Bougado atende às necessidades de muitas famílias da freguesia.

“Há casos muito complicados em Santiago de Bougado”. Foi com comoção que Júlio Paiva, presidente da Conferência S. Vicente de Paulo desta freguesia, caracterizou a situação financeira das famílias bougadenses.

Em entrevista ao NT, o responsável por este movimento religioso garantiu que “não há noção da realidade atual das pessoas” nos dias que correm. As dificuldades surgiram de várias maneiras e aos que menos esperavam.

Existem famílias cujos cônjuges tinham uma vida profissional estável, mas de repente perderam os empregos. Os obstáculos estão escondidos por detrás das paredes do lar que, por fora, ostentam um desafogo aparente mas, por dentro, revelam o sufoco em que vivem muitas pessoas. A vergonha faz com que muitos escondam as dificuldades financeiras que, muitas vezes, os privam da alimentação.

Em Santiago de Bougado, a Conferência S. Vicente de Paulo organizou-se para estar atenta a toda a população da freguesia. Há cerca de dois anos, Júlio Paiva foi desafiado pelo pároco Armindo Gomes para abraçar a Conferência, já que tinha “vários projetos de cariz social para desenvolver”. “Convidei alguns amigos e juntamo-nos à equipa que já trabalhava no terreno”, contou. Em cada aldeia, há pessoas que diagnosticam as famílias que necessitam de apoio. Depois, cabe ao presidente e outros elementos da Conferência “analisar, pormenorizadamente, o nível de auxílio que pode ser prestado”.

O sigilo é uma das imagens de marca – e uma das regras invioláveis – da Conferência S. Vicente de Paulo, pelo que “o que se passa nas reuniões e o que se vê não pode nunca passar para o exterior”, garantiu Júlio Paiva.

A análise feita das condições das famílias não se baseia apenas na declaração de rendimentos ou no IRS, pois seria redutora, afirma. “Há pessoas com 700 ou 800 euros de ordenado, que necessitam mais do que aquelas que têm menos, porque acumularam dívidas, créditos”, explicou. “Há pessoas que perderam os empregos que não estavam a contar, pessoas que tinham uma vida equilibrada e de um momento para o outro tudo foi por água abaixo. Situações de divórcio, em que as dívidas ficaram todas na mão de uma mulher, com dois filhos. Com um rendimento que até pode ser de 700 euros, tem que pagar o empréstimo de casa, as contas da luz, gás, água e o ATL”, frisou.

Apoio na alimentação, medicação e despesas correntes

Apoiado na mensagem de Jesus de que “não devemos julgar ninguém”, Júlio Paiva trabalha, afincadamente, e prova disso são as capas que reúnem, de modo organizado, um sem número de papéis sobre a situação financeira das famílias apoiadas.

Cerca de 30 são ajudadas todos os meses através de cabazes alimentares, compostos por fruta, carne, peixe, conservas, produtos hortícolas, leite e outros produtos. Para este trabalho em muito contribui a generosidade de empresas como “as Frutas Ramalho e as Carnes Salgueirinho, que têm sido incansáveis, pois dão os produtos mensalmente, sem pedir um cêntimo”. “Também a Termoave está sempre disposta a ajudar, por exemplo com o bacalhau para os cabazes de Natal, assim como a Brasmar que nos fornece o peixe”, assinalou.

A Junta de Freguesia de Santiago de Bougado também apoia a Conferência com 1500 euros mensais. Mas, há “anónimos” que ajudam muito este grupo a matar a fome e a ajudar os mais carenciados. Quinze famílias são, mensalmente, apoiadas ao nível da medicação, 15 pessoas tem apoio com as fraldas, e até as despesas correntes de quatro famílias contam com a intervenção da Conferência S. Vicente de Paulo.

Para além do apoio monetário, este movimento visita, periodicamente, 130 famílias que tenham pessoas acamadas, doentes ou idosos para dar uma palavra amiga.

O programa para 2012 “é ambicioso”, afirmou Júlio Paiva. O orçamento previsto é de 27.700 euros, que são distribuídos pelas várias vertentes de apoio. No entanto, devido à escalada de dificuldades, a Conferência instituiu que cada família só pode ser apoiada, no máximo, em duas valências.

Outra das atividades deste grupo é o quiosque vicentino, em frente à Casa da Cultura da Trofa, no souto da Lagoa, que abre no primeiro fim de semana de cada mês, onde existem rifas, café, chá e bolos confecionados pelos confrades (elementos da Conferência). “Também educamos para a saúde e para a economia doméstica. Este ano, fizemos um programa de substituição de lâmpadas e fomos às casas das famílias e colocamos 1400 lâmpadas economizadoras”, acrescentou.

A Conferência vai ainda organizar trimestres temáticos este ano – do medicamento, das fraldas, do leite e dos livros e do pão – para apoiar as famílias nestas áreas. Outro dos projetos do grupo é promover uma “ceia de Natal”, em colaboração com a Junta de Freguesia de Santiago de Bougado, aberta a toda a população.

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