Dificilmente a namorada de Rui Silva guardará boas recordações de uma visita que fez a S. Romão do Coronado, na Trofa. Pelo menos em termos odoríferos – foi obrigada a levar a mão à boca para suster o vómito. O funcionamento da Savinor, uma fábrica instalada entre aquela freguesia e Covelas, que transforma subprodutos do abate de aves e resíduos de peixe, está na origem de um cheiro nauseabundo que afecta as populações vizinhas. A situação arrasta-se há muitos anos. As câmaras da Trofa e da Maia exigem que o Governo encerre a unidade, se não forem resolvidos os problemas relacionados com os maus cheiros.

O odor desagradável incomoda milhares. E nem por estar em curso o processo de licenciamento ambiental da fábrica houve melhorias. António Pontes, vereador do Ambiente da Câmara da Trofa, diz mesmo que a situação sofreu um "agravamento claro e inequívoco" nos últimos meses.

Na sequência das diligências das autarquias, a Savinor foi alvo de uma inspecção realizada, há dias, por técnicos da  Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) e das câmaras da Trofa e da Maia. Segundo António Pontes, a vistoria detectou um "conjunto de deficiências na laboração". Ainda se espera, porém, o relatório final.

"Há pessoas que vomitam e há quem estenda a roupa à noite e, de manhã, tenha de lavá-la outra vez", narra Manuel Rocha, conhecedor das penúrias aromáticas de dois concelhos vizinhos – Maia e Trofa, onde habita e trabalha, respectivamente. Porque o odor oscila ao sabor dos humores do vento. Rui sabe-o. E cheira-o, sobretudo. "Moro a dois quilómetros daqui [em Vilar de Luz, na Maia] e, às vezes, cheira pior lá do que aqui", explica.

"A empresa deve fechar até que tenha condições", afirma Bragança Fernandes, presidente da Câmara da Maia, que escreveu à Agência Portuguesa do Ambiente e à Direcção Regional da Agricultura e Pescas do Norte exigindo uma intervenção.

"Ou a empresa melhora a situação ou tem de fechar. É hora de resolver o problema em definitivo", concorda António Pontes, lembrando que a Câmara da Trofa já enviou um ofício ao ministro do Ambiente. O vereador acrescentou que a Autarquia deu parecer negativo à emissão de licença ambiental para a empresa, que já terá sido multada pela Inspecção do Ambiente, após vistorias que detectaram deficiências.

Fátima Ferreira também sente os resultados dessas falhas há um ano, quando se mudou para S. Romão, não sabia que teria de pensar duas vezes antes de abrir as janelas de casa. "Quando comecei a mudar as tralhas é que notei. Tenho dias em que me arrependo de ter vindo para aqui". Entretanto, a convivência com os aromas da Savinor não atenuou a estranheza. Maria de Lurdes Brás também não se habitua. Habita a freguesia desde que nasceu, há 63 anos, mas "antes não morasse", porque "cheira muito mal". "Ontem [anteontem] à noite, era uma epidemia que intoxicava", comprova Orlanda Carvalho, há 18 anos na freguesia.

O JN contactou a empresa, mas nenhum responsável se mostrou disponível para prestar esclarecimentos. Do Ministério do Ambiente não obtivemos resposta em tempo útil e as tentativas de contactar a CCDRN resultaram infrutíferas.

texto de Ana Correia Costa  e Hugo Silva
foto de Pedro Correia

In jn