A poucos dias de se assinalar o Dia Internacional das Famílias (15 de maio), o NT quis saber a realidade daquelas que acolhem crianças em risco. A Mundos de Vida é a instituição que desenvolve este serviço na região.

Depois de conhecer a campanha “Procuram-se Abraços”, Roberto e Sofia Monteiro decidiram ser família de acolhimento. A sorte ditou-lhes dois irmãos, o João e a Maria (nomes fictícios), provenientes de uma família em risco. Depois de participarem em formações, para se inteirarem de todos os procedimentos para o acolhimento e de conhecerem a mãe dos meninos, Roberto e Sofia começaram a mudar a vida destas crianças.

Banalidades como o som das máquinas dos supermercados ou frutas raladas com bolacha, constituíram verdadeiras novidades para os meninos. O casal, que tem um filho, teve de se adaptar a ter mais “dois hóspedes” e ensinar-lhes um pouco de tudo. O primeiro contacto, já em casa, foi melhor do que esperavam. “Pensei que ia ser pior, mas a primeira noite foi sossegadíssima”, contou Roberto Monteiro.

João, com sete anos, faz jus à idade e é o mais irrequieto. A paixão pelo futebol é sinónima de dois pares de sapatilhas rasgadas. Já Maria, com nove anos, “gosta mais de estar no seu canto”, estuda e lê muitas histórias. O filho do casal, da idade do João, também participou nas formações e é um verdadeiro monitor, pois “gosta que se cumpram as regras”.

O contacto com o resto dos membros da família “foi muito bom”, referiu Roberto. “Eles já sabiam que queríamos acolher uma criança. Os avós aceitaram muito bem e já os tratam como se fossem netos. Nos fins de semana, almoçamos nos meus sogros e nos meus pais e eles adoram”, acrescentou.

Outro dos momentos inéditos que as crianças viveram aconteceu no domingo: “Fomos ver o Trofense-Leixões e eles ficaram deslumbrados com a festa, com os confetis no ar”.

Desde março com a família de acolhimento, João e Maria não perdem o contacto com a mãe, que, por sua vez, vai estando a par de todos os passos das crianças.

O facto de poderem crescer numa família com bases sustentadas dá-lhes a oportunidade de serem como as outras crianças: “São iguais a todas as outras”.

Roberto e Sofia têm noção que acolhimento não é adoção e que um dia, os meninos regressarão à família de origem. No entanto, sabem que o dever está a ser cumprido e que a vida de João e Maria nunca mais voltará a ser como era.

Mundos de vida desenvolve serviço na região

A Mundos de Vida, instituição sediada em Lousado e com atuação em toda a região, desenvolve a campanha “Procuram-se Abraços” que recruta famílias de acolhimento como Roberto e Sofia Monteiro.

Com a criação do Serviço de Acolhimento de Familiares, a instituição conseguiu transformar o perfil das famílias de acolhimento, que contam com um rendimento médio de 2300 euros mensais. De acordo com Celina Cláudio, diretora técnica do serviço de família da Mundos de Vida, os acolhedores, normalmente, “têm um curso superior ou são técnicos especializados e uma vida familiar estável”, características que diferem com o perfil de famílias de acolhimento resultante de um estudo do Instituto de Segurança Social, em 2002, que as colocavam no mesmo estrato económico das crianças em risco.

Na Trofa, o serviço da família ainda “está a dar os primeiros passos”, no entanto “há bastante adesão” à campanha, referiu.

O número de crianças para acolher “é irregular”, mas a procura para acolher tem sido “crescente”. Celina Cláudio explica esta tendência com “o serviço especializado” que a Mundos de Vida oferece: “Um acompanhamento técnico rigoroso e profissional dá mais segurança aos técnicos de acompanhamento social, que podem encaminhar as crianças para as famílias de acolhimento”.

A duração do acolhimento “depende do tempo necessário para que a família biológica se reorganize”. O pressuposto fundamental deste serviço é o regresso das crianças à família de origem, pelo que os acolhedores “têm noção que não vão substituir os pais e que não estão só a ajudar as crianças, mas também a família”. “A motivação das famílias de acolhimento é humanitária e solidária, pois pretendem ajudar uma criança e não acolhem para substituir um filho ou para satisfazer o desejo de maternidade”, afiançou Celina Cláudio.

No fim do período de acolhimento, o feedback das famílias é que “sentem que a sua missão foi cumprida, no sentido de reforçar as competências pessoais e sociais da criança, mudando ou reformulando alguns comportamentos, regras e autoestima”.

Este ano, os resultados da campanha “superaram expectativas”, porque, como se trata de um “ano difícil em termos económicos”, a instituição esperava que o número de pedidos não fosse elevado. “No total, no Porto e Braga tivemos 429 contactos. Em particular, na Trofa tivemos 14 pedidos e isto leva-nos a ter uma ideia de que há famílias dispostas a acolher”, afiançou.

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