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A família da jovem que morreu quinta-feira com a variante da Creutzfeldt-Jakob vai aguardar os resultados da autópsia para decidir se avança ou não com uma queixa contra o Estado português, afirmou a mãe da menina.

“Até conhecermos os resultados da autópsia não vamos processar ninguém, nem pedir qualquer indemnização, nem ao Estado nem a ninguém”, afirmou esta sexta-feira Manuela Pereira, a mãe da jovem que faleceu.

“Estamos muito cansados de tudo. Temos de parar para pensar”, referiu a mãe de Sara Patrícia Pereira, que faleceu esta quinta-feira, aos 16 anos de idade, ao que tudo indica com a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob, depois de ter estado dois anos em estado “vegetativo” em casa dos pais.

Oriunda de uma família modesta, Sara Patrícia passou os últimos anos numa casa degradada onde só o quarto da menina tem condições de habitabilidade. David Pereira, o pai de Sara, está desempregado e a mãe esteve em casa a “cuidar” da filha e só agora deve regressar à confecção onde trabalhava.

“A nossa vida mudou toda desde que nos disseram que a Sara tinha a doença das ‘vacas-loucas’ e que não havia nada a fazer”, disse Manuela Pereira. “Somos pobres, precisamos de dinheiro para viver, mas só quando soubermos o resultado da autópsia é que decidimos se vamos ou não processar o Estado”, afirmou.

A doença de Sara estava “diagnosticada” e os médicos que acompanharam a jovem mantiveram a família a par da situação. “Sabíamos que era uma questão de dias ou meses porque os médicos disseram-nos sempre que não havia cura. A Sara teve muito azar na vida”, frisou.

O funeral realiza-se este sábado, dia 14 de Fevereiro, às 11 horas, na igreja de Bairro, em Vila Nova de Famalicão.

Esperado aumento de casos em Portugal, mas em número reduzido

Um investigador português com vários estudos publicados em revistas internacionais sobre BSE (Encefalopatia Espongiforme Bovina) considera previsível o aparecimento de novos casos da versão humana da doença, mas em menor proporção do que no Reino Unido.

Entre 1995, quando surgiram no Reino Unido os primeiros três casos da nova variante da Doença de Creutzfeldt-Jacob (DCJ), até 2008, em que apareceu apenas um, registou-se um total de 164 casos naquele país, com um período de pico em 2000/2001.

Além desses casos no Reino Unido, onde a doença teve origem, registaram-se outros 23 óbitos em França, um em Itália, três na Holanda e cinco em Espanha.

“Em Portugal é esperado em princípio o que aconteceu no Reino Unido, mas com uma magnitude 10 a 100 vezes menor”, disse esta sexta-feira à Lusa Pedro Simas, autor de vários trabalhos sobre a BSE, alguns deles em colaboração com o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária (LNIV).

O investigador justifica a estimativa com o número de animais infectados, que no reino Unido foi 100 vezes maior, e tendo em conta a eficácia comprovada das medidas de protecção da saúde pública, porque “se tal não tivesse acontecido, apesar de haver menos animais, haveria maior exposição”.

“Conseguimos comprovar, através do número de casos que apareceram de BSE, a eficácia das medidas de protecção contra a disseminação da doença em bovinos”, acrescentou.

Mas, apesar de o problema das vacas estar ultrapassado, porque a doença está extinta há vários anos, o problema é a duração do período de incubação, que é muito grande, sendo que os casos da variante da DCJ só apareceram no Reino Unido cerca de dez anos depois da BSE terem começado a surgir nos bovinos.

É devido a esse longo período de incubação que só agora começaram a aparecer os primeiros casos humanos em Portugal, referiu Pedro Simas, que dirige a Unidade de Patogénese Viral do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Na quinta-feira morreu o segundo dos dois jovens a quem fora diagnosticada a variante da doença de Creutzfeldt-Jacob relacionada com o consumo de carne contaminada, tendo o primeiro falecido em Abril de 2007.

Segundo garantiu esta sexta-feira à Lusa o director geral da Saúde, Francisco George, não há mais casos notificados da variante da doença de Creutzfeldt-Jacob e continua activo o programa de vigilância.

O director-geral referiu também que os dois jovens falecidos terão consumido carne contaminada antes dos programas sanitários de vigilância para evitar esse consumo.

Quando estes dois casos foram divulgados, em Fevereiro de 2007, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, admitiu a possibilidade de virem a aparecer “mais dois ou três casos” da doença.

Cinco meses depois, o também o neurologista Cortez Pimentel admitiu a possibilidade de novos casos, estimando, contudo, que a doença venha a desaparecer.

com Lusa

Foto: Arquivo DN – Natacha Cardoso