Dez adultos submeteram-se ao exame do 4º ano de escolaridade na Escola Secundária da Trofa. Competências foram certificadas através de uma avaliação feita pelo Centro Novas Oportunidades da Escola Secundária da Trofa e validadas pela DREN.

“Estava muito preso, mesmo a falar. E agora falo melhor e compreendo melhor as pessoas. Foi tempo muito bem empregue”. O sentimento é de Manuel Marques, um dos dez adultos que, na tarde de terça-feira, dia 18 de dezembro, viu as suas competências ao nível do 4º ano de escolaridade serem certificadas, através de uma avaliação feita pelo Centro Novas Oportunidades da Escola Secundária da Trofa e validadas pela DREN (Direção Regional de Educação do Norte).

Juntamente com Manuel Marques, mais nove adultos concluíram uma fase que mudou as suas vidas por completo. O percurso iniciou-se através da Trofa Comunidade de Aprendentes (TCA), valência municipal entretanto extinta, através do curso “Aprender a Ler, Escrever e Contar”.

A professora Maria Rosa Lage, sem coragem para interromper o curso, continuou o seu trabalho de forma a possibilitar que os alunos pudessem garantir a certificação ao nível do 4º ano.

O dia de terça-feira foi “importante e feliz” para a professora voluntária do projeto, que viu, no total, 21 adultos a “conseguirem o 4º ano”. Os formandos, oriundos da vila do Coronado, do Muro e da cidade da Trofa, estavam “muito nervosos e ansiosos”, o que é normal, uma vez que o exame é “algo novo para eles” que “nunca estiveram numa sala de júri”. “Estavam bastantes preocupados, mas acho que se portaram muito bem”, afirmou.

Maria Rosa Lage recordou que alguns nem tinham a 1ª classe, outros a “2ª mal feita” e outros tinham a “3ª completamente esquecida”, sendo que este curso é “uma aprendizagem de tudo ao longo da vida”, onde aprenderam “a pintar, a recortar, as cores (que muitos não sabiam), a desenhar, escrever, ler, contar, as quatro operações (somar, subtrair, multiplicar e dividir), a raciocinar, a partilhar, a conviver, a falar, a comunicar e a dar”. “Eram pessoas muito fechadas que viviam no seu mundo, mas aprenderam a conviver. Neste momento, eles são novas pessoas”, salientou, acrescentando que, no final do exame, estavam “felizes e mais tranquilos”.

A professora denotou que existem “alguns” adultos que estão “com vontade de continuar” a aumentar as suas competências.

A docente espera que o projeto possa continuar, tendo contado, neste “último ano”, com a muita ajuda das “juntas de freguesia de S. Romão, S. Mamede e Muro”, que foram “maravilhosas” e “estão disponíveis a continuar com este projeto”.

Lucinda Azevedo era a mais nova do grupo de dez formandos. Apesar de estar um “bocado nervosa”, garante que o exame correu “bem”. Durante o curso, aprendeu “a ler e a escrever”, uma vez que tinha “muita dificuldade”, pois abandonou a escola quando “era pequena”. Quando descobriu a valência do TCA, decidiu inscrever-se, pois precisava “muito de saber ler” para desempenhar bem o seu trabalho. “Foi muito sacrifício, pois andava sempre a correr de um lado para o outro. De manhã ia estudar e à tarde trabalhar até às 22 horas. Mas graças a Deus fiz o 4º ano e vou fazer o 5º e o 6º e por aí fora”, acrescentou.

Manuel Marques, o mais velho do grupo, foi outro adulto que viu as suas competências certificadas. Com 82 anos, aprendeu a fazer “muita coisa”, nomeadamente “muita pintura” e “boas letras”. Para Manuel Marques o tempo foi “muito bem empregue”, pois agora fala e compreende “melhor as pessoas”. Se pudesse aconselhava as pessoas a aproveitar esta oportunidade de certificar as suas competências, pois “isto não vai durar sempre”.  

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