Edição 498
Eu sou da Trofa e a Trofa é minha

Ouvia eu dizer, naquele tempo, que a Trofa era explorada por Santo Tirso, pois pagava muitos milhares de contos em impostos e recebia investimento residual e desproporcional à colecta que para pouco ou quase nada chegava. E isto visto da perspectiva de quem morava em São Martinho, nem quero imaginar o que seria de zonas mais “interiores”. Ouvia também falar de uma identidade que nos distinguia de Santo Tirso, que não éramos iguais a eles, apesar de tal como eles humanos. Mas não éramos tirsenses. Éramos da Trofa e a Trofa era nossa! E entre nós e essa realização encontrava-se Joaquim Couto, a personificação do inimigo que nos vendiam panfletariamente pelas ruas da Trofa. E nós, miúdos, mesmo sem saber bem quem era esse senhor, nutríamos já por ele uma repulsa que nos fazia acreditar que havia ali um combate épico a travar.
Chegou então o dia 19 de Novembro de 1998 e lá estava eu no meio de mais de 8 mil pessoas, naquele cortejo de autocarros que saiu da Trofa em direcção à capital para ir “buscar o concelho”. Para mim aquilo era algo único e inexplicável: milhares de pessoas da minha terra, munidas com faixas, bandeiras, t-shirts e chapéus alusivos à causa, a berrar palavras de ordem e a invadir com estrondo o largo em frente ao Parlamento. Ninguém arredava pé até que os deputados nos dessem aquilo que era nosso por direito: independência. Foi um dia de festa e de fé inabalável num momento único de união em que todos remávamos no mesmo sentido. Quando da varanda do Parlamento veio o anúncio que confirmou a inevitável vitória, a nova explosão de alegria mais não foi que o confirmar daquilo de que todos estávamos à espera. Pegamos nas nossas trouxas e lá voltamos nós, Portugal acima, cheios de ilusões e sonhos.
16 anos mais tarde, muitos desses sonhos estão ainda por realizar. A Trofa é hoje um dos concelhos mais endividados do país, cujos limites territoriais não estão ainda devidamente definidos. Como podemos alegar que a Trofa é nossa quando ainda não temos exacta certeza sobre onde começa e onde acaba? Os Paços do Concelho continuam a ser um jardim imaginário, as acessibilidades estão hoje piores do que quando a N14 era menos movimentada e a via estreita ainda existia, o metro continua por resolver e a obra de unificação de parques arrasta-se lentamente enquanto outro parque, o das Azenhas, é lentamente reabsorvido pela natureza. Claro que a Trofa de hoje tem melhores arruamentos e a água e o saneamento chegam à maioria dos habitantes do concelho. Mas ainda estamos longe daquilo que idealizamos e o tempo não joga a nosso favor. 16 anos mais tarde, é fundamental que a Trofa se levante novamente e exija mais rigor, competência e respeito. Não chega sermos da Trofa: é fundamental que a Trofa seja verdadeiramente nossa.


