O cerne da actual crise, está localizado no sector financeiro, com a “bolha especulativa” que se criou nos EUA e que levou a um aumento sem precedentes do preço das casas. O sistema foi montado com a ideia de que não existia grande risco pois o preço das casas subia há mais de 20 anos. Quando os EUA alteraram a política monetária, a “bolha especulativa” desapareceu e o sistema caiu como um castelo de cartas.

As entidades reguladoras, ao tolerarem os mercados de risco, tiveram graves falhas de regulação, devido ao facto de a maioria dos reguladores achar que estava tudo muito bem. Se o sistema tivesse um efectivo e eficaz controlo, nada disto tinha acontecido.

Todos falharam. Os Bancos estavam a contar com garantias ligadas ao valor das casas. O sistema financeiro considerou que a propriedade era o bem mais sólido. Só que a partir de certo momento, quando a política monetária se altera e as taxas de juro começam a subir, a reacção foi a consciencialização da falta de sustentabilidade. Houve uns que saíram do mercado muito cedo, outros tarde de mais; uns tomaram mais riscos do que outros. Mas a forma como se construiu o problema, gradualmente e ao longo dos anos, tornou difícil detectá-lo, daí que poucos tenham chamado a atenção. E os responsáveis mais altos, políticos e reguladores, continuaram a alimentar este processo.

O papel fundamental do sistema financeiro, é encontrar um bom equilíbrio entre rentabilidade e risco. Na actual crise, o que houve foi uma subavaliação do risco, porque existiram condições financeiras excepcionalmente favoráveis e muitos convenceram-se de que o risco tinha desaparecido e que o preço do risco tinha baixado muito.

Tem vindo ao debate, a situação gerada com a crise de 1929. Então, a derrocada das poupanças aconteceu, porque o Estado não cumpriu as suas funções e a crise entrou num descalabro tal, que levou à falência de numerosas empresas e a uma falta de investimentos. Na situação actual, a intervenção pública deve ser pautada, não por qualquer tipo de dirigismo, mas sim por uma necessidade de intervir para compensar a quebra de confiança.  A confiança no sistema financeiro está muito abalada e não é evidente que se restabeleça com a facilidade que seria desejável. A crise só terminará quando se restaurar a confiança no sistema financeiro, em particular por parte dos depositantes. Aliás, quanto mais radicais são as medidas tomadas pelo poder político, mais a confiança se fragiliza, em virtude de todos ficarem mais convencidos, que afinal, a crise é muito mais grave do que o que se pensava.

A questão da crise, tem de ser vista também na economia real que está fortemente abalada. É bom lembrar que foi este sector, quer se queira reconhecer quer não, que na sua prosperidade conseguiu retirar da situação de pobreza centenas de milhões de pessoas. Foram mais de 1.400 milhões de pessoas nos últimos 25 anos, e mais de 500 milhões de pessoas nos últimos 10 anos que foram arrancados da pobreza extrema. A dimensão extraordinária destes números, deve levar a uma meditação, pois esta realidade, digna de realce, só foi possível, devido ao facto de ter sido o crescimento económico, que permitiu tal facto e não a caridade de qualquer governo.

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt