Quando pego no meu álbum de fotografias, se começar a abri-lo pelo início, pois tenho o hábito de abrir o jornal “O Jogo” pelo fim, encontro duas fotografias com três meses de idade, seguidas de outras duas já com seis.
Convém recordar que tenho quarenta e sete anos e que no ano de 1974 ter nos primeiros seis meses de vida quatro fotografias era uma extravagância e havia quem dissesse que me estavam a estragar com mimos!
Não me recordo de com três meses desejar ter seis, mas lembro-me perfeitamente de em criança os ponteiros pararem e o tempo não passar, e de 24 horas dos meus seis anos terem a duração de três dias dos meus “quarentas”.
Na primária, o tempo chegou a arrastar-se para trás, fruto de uma paixão correspondida, e sentia que o dia de casar com a Carlinha (sim, ela prometeu-me a meio da 1ª classe) estava à distância do “além”, numa altura em que tudo o que era para amanhã era sempre distante demais!
Impaciente, aos treze anos queria ter dezasseis, para parecer crescido (!), e aos dezasseis queria ter dezoito, para ter a carta. Nunca estava bem com a idade que tinha, mas lembro-me de pensar “ No ano 2000 vou ter vinte e seis anos. Que velho!”
Não me senti velho quando lá cheguei, coabitando, por vezes, o mesmo espaço com os adolescentes, mas diferente deles, no ritmo e também nas lamúrias, eles praguejando que o tempo não passava e eu a dar por mim a dizer “O tempo corre!”
E correu até aos trinta!
E aos trinta lembrei-me dos meus dezassete. E dos meus dezassete lembrei-me de um certo sábado à tarde, em que encontrei um amigo destroçado, a quem delicadamente perguntei:

  • Estás todo lixado, Fernando! O que se passa?
  • Faço trinta anos. – respondeu-me.
    Com carinho, consolo-o:
  • Deixa lá, eu tenho dezassete!
    E ele chorou, virou costas, foi-se embora e nunca mais me falou. Senti que ele trocava a idade que tinha pela minha.
    Sugestionado por esse acontecimento treze anos antes, passei o dia 26 de Dezembro de 2003 ao lado de um desfibrilhador e acompanhado por um amigo psicólogo. Quando batem na torre da igreja as vinte e duas badaladas a marcar a hora do meu nascimento e a minha entrada nos “trintas”, nada aconteceu! Um momento antes tinha vinte e nove, no momento seguinte, trinta. Nem uma depressão, nem nenhuma quebra física. O coração batia normalmente e nem uma mísera cãibra senti a denunciar o peso da idade! Que seca! Nada de extraordinário para relatar a não ser o facto de ter passado a noite a ouvir os desabafos do meu amigo psicólogo a sofrer de males de amor e, ao contrário do Fernando, não trocar o actual número por outro abaixo.
    Espirrei e sem dar conta fiz quarenta, tossi e sem me aperceber estou nos quarenta e sete. Ontem, no ginásio, onde me sinto um seminovo acabadinho de sair do stand, ao meu amigo Samuel, chamei-o de “velho”… ele sorriu. O sorriso era acompanhado de um pensamento, ao qual respondi, “Rejuvenesce-se a partir dos quarenta! Vais ter de esperar mais vinte anos.”

Nunca mais soube do Fernando e o meu amigo psicólogo sempre que pode, passa por minha casa para desabafar e, por enquanto, continuo a não trocar o meu número actual pelo anterior!