Se por norma odeio ser acordado pelo despertador, que me lembra que é cedo e tenho de ir trabalhar, puxando-me para a realidade da minha condição de remediado e dependente de um salário, hoje, sábado, adorava que tivesse dado sinal de vida, não fosse a bateria do telemóvel ter acabado.
Liguei a televisão num dos canais de notícias, que dava a mesma não novidade dos últimos meses, e horrorizo-me com a hora que a televisão me mostra…11h43m.
Coloco o telemóvel a carregar e dou passos em direcção à casa de banho…ele toca.
“Logo agora!” – penso eu.
Desfaço os passos dados e pego no telemóvel. Apesar da pressa, queria saber a pessoa que eu não iria atender…é o Miguel.
Sempre que falamos, ele lembra-me que nunca atendo as chamadas à primeira, coincidindo os seus telefonemas com os momentos em que estou no trabalho, no ginásio ou a conduzir, mas ligo à primeira oportunidade.
Como o estado de “pressa” em que me encontrava não se enquadra num dos estados anteriores, “trabalho”, “ginásio” ou “condução”, por fortes motivos morais (ele é meu amigo desde a primária) vi-me obrigado a atender, não sem antes ter expressado um, “Fogo, tinhas que ligar agora!”.

  • Estou, Miguel! Diz? – atendo de forma apressada.
  • Tudo bem? – pergunta-me
  • Estou com pressa. – e explico-lhe – ontem conheci uma miúda a meio do corredor de casa e convidei-a para sairmos hoje. Combinamos, no mesmo sítio, a meio do corredor, em frente a um espelho que lá tem, ao meio dia e pouco.
  • Não te preocupes – diz ele – pela minha experiência com o sexo feminino, meio dia e pouco é sempre depois da meia hora, quase uma. Se fosse meio dia e pico, isso seria até ao meio dia e vinte, mas nunca antes do meio dia e quinze.
    Estas palavras do Miguel deram-me tempo e em troca dei-lhe pormenores.
  • Vou levá-la a almoçar fora, arrancamos do corredor e vamos até à cozinha…
  • Olha, se o tempo estiver bom, conheço um restaurante muito bom, chama-se “Varanda”. – sugere.
  • …Depois vamos em passeio até à sala e apreciar a paisagem, a decoração é muito bonita,…
  • Ela é boa?
  • …não é exagerada nem demasiado minimalista, depois vamos ao cinema num qualquer canal de televisão, vou arriscar dar-lhe a mão!
  • E ela é boa?
  • …Vai ser um dia em grande! Estou a pensar regressar ao quarto de dormir só à noitinha…depois de passar pelo quarto de despir.
  • Ui, e ela è boa?
  • Chama-se Cristina! Penso deitar-me com ela todas as noites!
  • Então ela è mesmo boa?!!!
  • Sinto que a mulher que conheci ontem a meio do corredor, conheço desde sempre…esta casa é um mundo!
  • Por falar em mundo. Ouvi dizer que os cientistas descobriram vida fora das casas e condomínios, em pequenas luas chamadas de “esplanadas”. Amanhã sou capaz de ir a uma delas de escafandro e botija de oxigénio! Queres vir?
  • Não, Miguel! Olha, agora tenho de ir. – e desliguei o telemóvel.

Sempre fantasioso, o meu amigo Miguel!