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Edição 746

Escrita com Norte: Amor de verão

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Era uma vez… esta história não começa assim!
– Atira-te, atira-te ao mar! – Diz ela em tom decidido.
Estão os dois no limite de uma falésia, cem metros acima do nível do mar.
– Mas eu não sei nadar! Se me atiro afogo-me por mais que esbraceje… é uma questão de tempo! – Responde ele não querendo acreditar no que ouvia da boca de Maria.

– Não vês que é a coisa mais sensata a fazer? Quem mais gosta perde, e tu perdeste. Vá lá. Somos adultos, eu fico aqui em terra e segura e tu atiras-te. Se não for no mar, morres nesse teu banho de lágrimas. Arrisca, quem sabe se enquanto te afogas, por momentos não descobres um novo mundo!

Neste discurso de, suposta, angélica e piedosa racionalidade de Maria, Alexandre Roma, nome da nossa triste figura, depressa penetra nos seus próprios pensamentos e conceitos da vida, questionando-se por que razão não é tudo simples, já que tudo é complicado. Mas do discurso de Maria, Alexandre Roma capta duas palavras importantes, “arrisca” e “descobres”, que são o dispositivo para uma explosão interior, mais uma em Alexandre Roma, qual Dom Quixote, se calhar ainda mais triste, ou não, e lança-se da falésia, resultado de um impulso e não de um pensamento.
A queda de Alexandre Roma demorou cerca de quinze segundos, que ele aproveitou ao máximo para experimentar a sensação de queda livre, porque certamente iria morrer do impacto com a água. Se isso não acontecesse, do afogamento não se safava, tendo no máximo mais dois minutos de vida consciente, pelo que Alexandre Roma quis aproveitar ao máximo os seus dois minutos e quinze segundos de vida.
Para Alexandre Roma, estar dois minutos seguidos consciente, seria um novo recorde nos seus quarenta e tal anos de vida. Se fosse contemporâneo de Dom Quixote, certamente seriam grandes amigos. Iriam partilhar batalhas imaginárias, copos reais e mulheres…imaginárias.
Alexandre Roma cai em silêncio, usufruindo dos sentidos nesta sua última experiência em vida, não contando com  a derradeira experiência, que seria a da morte.
Eis que é avistado por quatro gaivotas que decidem ajudá-lo e precipitam-se para Alexandre Roma, agarrando-o pelos braços e pernas e iniciaram um bater de asas louco para diminuírem a velocidade de queda da nossa triste figura. De nada adiantou, apenas diminuíram a velocidade em três metros por hora!
Splash! Alexandre Roma atinge a água com uma barrigada monumental, que nos Jogos Olímpicos na modalidade de Salto para a Água, certamente teria nota “0”.
Neste impacto, a dor que Alexandre Roma sentiu não foi física, mas sim interior, muito profunda. Sentiu-se a esvaziar de vida e por mais que esbracejasse não conseguia vir à superfície. A Morte estava próxima!
Desesperado e impotente, Alexandre Roma deixa de lutar pela Vida e chora, chora…de tal maneira que o Mar ficou mais salgado e o nível da água subiu um metro em todo o mundo, como se ele fosse rodeado por uma barragem gigante que, de uma vez só, abriu as comportas, deixando os cientistas alarmados, pensando que o processo de degelo dos glaciares tinha acelerado.
Alexandre Roma já não tem oxigénio nos pulmões, suas artérias, veias e órgãos ficam inundados de água. O sangue que o coração bombeia já não transporta vida, as células começam a morrer, é o fim de Alexandre Roma…
Inexplicavelmente, a teoria da evolução e dos mais bem adaptados, que explica mudanças ao longo de milhares e milhões de anos, acontece em Alexandre Roma em poucos segundos, o seu corpo começa a mudar, todos os seus órgãos se adaptam à vida marinha. Já consegue respirar!
Da morte certa Alexandre Roma desperta, e o primeiro pensamento que lhe surge é a imagem de Maria.
Neste momento a nossa figura, ainda triste figura, desconhece o maior poder do sal do mar. Este é capaz de colar todos os cacos de um coração despedaçado!

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Edição 746

Pó dos arquivos: Em memória do Professor Cândido Padrão (de Santiago de Bougado)

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Não serão muitos os que ainda se recordam do senhor professor Cândido Padrão. Poucos serão, certamente, aqueles que com ele conviveram. Ainda menos os que sabem da homenagem prestada, no dia 30 de Novembro de 1947, em Areias (Santo Tirso), ao professor, “um professor exemplar, gozando de muita estima entre os colegas e a população dessa freguesia, impondo-se à consideração de todos pela nobreza do seu carácter e pelas suas qualidades de trabalho.”

Peço licença para, em sua memória, transcrever, no mês em que ocorre o 74.º aniversário do seu falecimento, a notícia, então, publicada.

“HOMENAGEM PÓSTUMA A UM PROESSOR PRIMÁRIO
Uma Comissão de antigos alunos do falecido professor Cândido Dias Moreira Padrão1 que, durante 35 anos, exerceu o magistério primário na escola de Fernando Pires de Lima, da freguesia de Areias, obteve autorização de Sua Excelência o sr. Ministro da Educação Nacional2 para a colocação do seu retrato no salão dessa escola, onde se encontram também os retratos do fundador e que foi professor da mesma, e de mais dois beneméritos.
Para tal fim, e em homenagem ao professor Padrão, celebrou-se pelas 10 horas do passado domingo uma missa pela sua alma e dos alunos falecidos, sendo muito concorrida.
Às 11 horas realizou-se no salão escolar uma sessão solene que foi presidida pelo sr. Presidente da Câmara deste Concelho, dr. Adriano Fernandes de Azevedo, ladeado pelo filho mais velho do homenageado, um membro da Comissão promotora Dr. Manuel Fontela, pároco da freguesia, Dr. Lima Carneiro, como representante do Grémio da Lavoura, Jaime de Sampaio, da Casa do Povo, delegados escolares de Santo Tirso e Famalicão, presidente da junta e mais individualidades.
Aberta a sessão, foram lidos diversos telegramas e cartas de antigos alunos e pessoas estranhas, que se associaram a esta homenagem, mas que, por motivos imprevistos, não puderam assistir.
Dada a palavra ao antigo aluno Dr. Domingos José Dias, coronel médico, S. Ex.ª, numa brilhante alocução, descreveu a acção do velho professor e salientou a orientação moral e pedagógica dirigida nesta escola e a conduta social seguida por este educador, exortando as crianças que também estavam presentes a não esquecerem a gratidão que deviam ao seu primeiro professor, ao primeiro que lhes abre os olhos da inteligência para o áspero caminho da vida.
Em seguida, o neto mais novo do homenageado, Hermano Manuel, descerrou o retrato do seu avô no meio de uma salva de palmas.
Seguiu-se no uso da palavra o antigo aluno Dr. Manuel Fontela que, com notável brilho oratório relembrou a vida escolar de outros tempos, focando o momento actual e pondo em relevo as qualidades do homenageado, como educador, como cidadão e chefe de família exemplar.
Em nome do professorado primário, falou o professor da Trofa, Hugo de Almeida, que numa oração cheia de poesia e ternura, exaltou aqueles que de alma e coração se devotaram ao nobre apostolado da instrução.
Por último, o filho mais velho do homenageado, professor aposentado Júlio Padrão, profundamente emocionado, agradeceu em nome da família a homenagem que foi prestada ao autor dos seus dias.
O sr. Presidente, antes de encerrar a sessão, teve palavras de alto apreço pelo acto que acabava de realizar-se, chamando a atenção para os educadores de hoje e animando-os a seguir-lhe o exemplo.
Todos os oradores foram muito ovacionados.
Assistiram a esta sessão as crianças das escolas masculina e feminina desta freguesia, os antigos alunos do homenageado, alguns dos quais se deslocaram de longes terras e muitas pessoas de representação dos arredores da vila de Santo Tirso e do vizinho concelho de Famalicão.”
(JORNAL DE SANTO THYRSO, 5 de Dezembro de 1947, Pág. 3)

1 Faleceu em 7 de Julho de 1947, no lugar da Lagoa, Santiago de Bougado, freguesia em que nascera.
2 Fernando Andrade Pires de Lima (1947-1955), natural de Santo Tirso
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Edição 746

Memórias e Histórias da Trofa: Terra de progresso

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Aproximava-se o término do ano de 1952 e comunidade trofense registava mais um momento fundamental para o seu progresso. A indústria dava os seus passos de gigante para consolidar a identidade de cidade progressiva, sendo que a atividade económica não se esgotava, simplesmente, no setor secundário, pois a agricultura demonstrava, igualmente, sinais de vitalidade.
Nesse momento da história, era inaugurado mais um posto de seleção de sementes da Federação Nacional dos Produtores de Trigo, esse projeto megalómano da agricultura nacional, que iria encerrar mais um marco da sua implementação naquele território.
Seguramente que os leitores já ouviram falar do velho celeiro, do equipamento onde se treinava ginástica com as cores do desaparecido “Ginásio da Trofa” ou até mesmo a Banda de Música ensaiava, que iria ser local dinamizador da comunidade.
No referido equipamento, em 1952, era inaugurado um posto de seleção das sementes, o 22.º na história da empresa, reforçando a importância estratégica daquele equipamento que, além de ser um simples local de armazenamento de cereais, seria também onde as sementes seriam escolhidas para existir melhor aproveitamento e rentabilidade do negócio agrícola.
Oito de novembro de 1952 foi a data da inauguração daquela nova valência, concretamente o novo posto de seleção mecânica de sementes de trigo e centeio.
O 22.º posto da FNPT destinava-se à seleção de sementes de trigo de diversas variedades: maia e malagueija, variedades estas mais comuns na extinta região administrativa denominada entre o Douro e Minho e também no Minho.
Numerosos lavradores estiveram presentes, não somente naturais da Trofa, mas também oriundos de Famalicão, Santo Tirso, Braga, Guimarães, Matosinhos, Vila do Conde, entre outros territórios, atestando que aquela melhoria não iria servir somente a Trofa, mas um grande número de lavradores de regiões a algumas dezenas de quilómetros.
A colocação de um equipamento agrícola que seria utilizado numa escala de âmbito extra-local é um sinal inequívoco da importância económica que aquela situação representava e uma constatação do vigor que apresentava o setor primário e não somente o setor secundário.
Escrevia-se no órgão de comunicação mensal da Federação Nacional dos Produtores de Trigo que a Trofa e o desenvolvimento eram sinónimos.
O referido equipamento agro-industrial era único entre Douro e Minho e tinha a capacidade de escolher por hora até os 700 quilos de semente.
Uma última curiosidade para a alusão do nome da máquina, que era batizada com o nome de Dr. João Antunes Guimarães, em homenagem a um dos maiores impulsionadores para a afirmação da campanha do trigo e que tinha falecido pouco tempo antes daquele momento histórico.
Por fim, a confirmação da evolução em mais que uma vertente da economia local, considerado na imprensa nacional como uma terra progressiva que teve o privilégio de ter sido o primeiro posto da escolha de sementes daquela instituição agrícola nacional. Reforçando a importância do antigo celeiro que não se resumia somente a ser um mero local de armazenagem, mas, um local fundamental para a maior rentabilidade agrícola com a seleção de todas as sementes a ser realizada ali naquelas instalações.

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