Pedro Moreira é daltónico e aluno de Artes na Escola Secundária da Trofa. Descobriu quando ainda frequentava o Jardim-de-infância, mas tem ultrapassado várias barreiras para continuar a pintar. O grande sonho é tornar-se cineasta.

“Começou por se notar com quatro ou cinco anos quando estava no infantário, porque em certos trabalhos que tínhamos de pintar, as educadoras repararam que eu não conseguia distinguir algumas cores”.

Este é o início da história de Pedro Moreira. É daltónico desde que se conhece, mas essa pequena característica nunca o afastou de nada… muito pelo contrário. Hoje, frequenta o 12º ano de Curso de Artes na Escola Secundária da Trofa e enfrenta o obstáculo de distinguir as cores todos os dias.

Frequentar o curso é um desafio, mas Pedro sempre contou com a ajuda de dois colegas. “Foi só agora no 12º ano que contei a todos da turma e aos professores das disciplinas respectivas à área, visto que me preocupava com o exame de desenho no final do ano e precisava de ajuda para desenvolver algum método que me tornasse independente”, contou.

Os amigos encaram “relativamente bem”. “A primeira reacção da maioria é sempre ‘és daltónico? A sério? De que cor é isto?’, mas nunca gozam. Passado o primeiro impacto eles acabam por querer ajudar, mesmo sem eu pedir o que é muito bom”, garantiu.

As tarefas rotineiras, como por exemplo escolher a roupa para vestir, eram uma dor de cabeça. “Dependia sempre de alguém para poder combinar peças, agora decoro sempre o que posso vestir e o que fica bem”, adiantou, confessando no entanto que não arrisca comprar roupa sozinho, “a não ser que seja alguma peça branca ou preta”.

Mas o verdadeiro truque é “rotular tudo com o nome da cor”, isto no que toca aos materiais de pintura com que trabalha. “Em relação a distinguir as cores em objectos ou paisagens já é mais complicado”, garantiu. Apesar desta dificuldade, Pedro Moreira gosta particularmente de “desenhar pessoas, animais e paisagens (urbanas e rurais)”. “As diferentes intensidades de luz e a luminosidade das cores” fazem com que distinga as cores mais escuras das mais claras, “mas nunca a cor propriamente dita”.

Agora aceita bem o daltonismo, mas nem sempre assim foi. “Frequentei o curso de Ciências e isso foi um grande erro. Os meus pais sempre me apoiaram e respeitaram, mas ao comentar com certas pessoas que estava a pensar seguir Artes, todos diziam o mesmo: “Achas que isso te vai dar algum futuro? E que vais fazer para um curso desses quando és daltónico?”. Fui deixando que isso afectasse as minhas ideias”, adiantou. Uns meses depois percebeu que não tinha vocação para a área científica, mas sim para a artística. Ao final de um ano mudou para Artes e voltou a fazer o 10º ano. Não se arrepende dos passos atrás. “Foi o que sempre quis, nunca pensei muito na razão de ser, mas só me sentia bem a desenhar ou a pintar alguma coisa”, contou.

 

Ser daltónico é ser livre e ver o mundo de outra perspectiva”

“Ser daltónico é, para as pessoas ditas normais, uma coisa muito estranha e difícil de entender, mas, na verdade, para mim é, até certo ponto, algo libertador, ou seja, tenho uma liberdade para criar algo que, dentro dos meus parâmetros, faz sentido e que os outros não têm, simplesmente, por estarem muito agarrados à cor natural e verdadeira de determinado objecto”. Esta é a explicação de Pedro Moreira, que pretende ver afastado o preconceito em relação ao daltonismo.

Esta perturbação da percepção visual afecta 10 por cento da população mundial masculina. Os primeiros sintomas de daltonismo são detectados na idade escolar. Mais tarde, o indivíduo daltónico vê serem-lhe interditas diversas profissões, tais como pilotagem de aviões, navegação marítima, indústria gráfica, indústria química, geologia, arqueologia, actividades ligadas à área da informática ou áreas financeiras, a decoração e a moda, entre outras.

Existem muitas situações no dia-a-dia que implicam a ajuda de terceiros: na escola, para a escolha de marcadores ou de canetas coloridas; na compra de vestuário; na orientação em interpretação de mapas e sinais de trânsito; na identificação correcta das bandeiras da praia; na identificação e escolha de qualquer tipo de produto ou serviço onde a cor seja factor de decisão.

Foi a pensar em todos os daltónicos que uma marca de tintas criou um novo código de cores, o que para Pedro “é algo que fazia falta”. “Podiam começar a utilizá-lo em coisas do dia-a-dia como nas roupas, por exemplo, facilitava a vida a todos os daltónicos”, afirmou.

Mas Pedro pretende ultrapassar as barreiras, quer continuar a pintar, mas o seu sonho é tornar-se cineasta. “Pretendo licenciar-me em realização e se possível fazer carreira nesse meio artístico”, frisou.