Nos últimos dias e semanas vamos sendo assolados por notícias de capital relevância, quase sempre transmitidas de forma facciosa, intencionalmente escamoteando a verdade dos factos. Não fossem os grandes meios de comunicação o que são, meros instrumentos de classe da luta de classes no século XXI, por muito que Sócrates desminta. Mas a Sócrates ainda lhe falta muito, ou tudo, para chegar aos pés do outro, do verdadeiro Sócrates, o velhinho, o filósofo condenado a beber cicuta e que assim morreu em 399 antes de Cristo. Daqui a pouco, talvez meio século, ou até muito menos, Sócrates será apenas este.

 Jornais, rádios e televisões (sobretudo estas) deram-nos nota do estado de completa guerra civil na Bolívia e venderam a ideia da revolta do povo contra o presidente Morales e contra a política que vem sendo seguida. Ora, isto é mistificar a verdade, é ludibriar conscientemente. De facto algo de muito grave se passa na Bolívia. Algo que não é novo e também já se passou no Chile há 35 anos atrás. Nessa altura R. Nixon informou o director da CIA, Richard Helms, que um governo de Allende não era aceitável para os EUA e instruiu a secreta para que tivesse um papel directo na organização de um golpe militar no Chile. Entre 1969 e 1973, agindo como autênticos mafiosos, aplicaram mais de 7 milhões de dólares nas forças reaccionárias e na desestabilização económica e política do Chile. Compraram mercenários para produzirem acções de sabotagem, manifestações e intimidações, pagaram greves como as que foram realizadas pelos comerciantes e camionistas. E ainda acrescentaram milhões de dólares para empresas privadas, sindicatos fantoches e para a imprensa de direita. Tudo o que deve ser feito na gestão e concretização de um golpe de estado com o objectivo de terminar com um governo e uma politica democrática a favor do povo. Porquê? É fácil. O governo de Unidade Popular que unia comunistas, socialistas e outros democratas saído das eleições de Setembro de 1970, fez o seguinte. Pela primeira vez um governo conta com operários a ministros; cria-se segurança social e assistência médica no campo e nos bairros pobres urbanos; leite gratuito para todas as crianças até aos 15 anos e para as mulheres grávidas; publicação de livros a preços populares; férias para os trabalhadores; nacionalização de 90% do sector bancário; o aço, o ferro, o salitre e o cobre passam a propriedade social, onde 70 grandes empresas são expropriadas e passam a ser geridas sob o controlo operário; a reforma agrária abrange 2,4 milhões de hectares de terra. As consequências destas medidas resultaram em aumento da produção industrial em 11%, crescimento do PIB em 7%, queda do desemprego de 8,3% para 4,8%, o aumento de 20 vezes de casas construídas, o crescimento de 66% dos salários reais e o facto de cerca de 60% do rendimento nacional ser detido pelos assalariados. Obviamente que os grandes interesses multinacionais e o governo dos EUA não poderiam tolerar esta situação. E então não conseguindo destruir o governo pela via democrática, derrubaram-no pela sabotagem, pela guerrilha económica, pela propaganda e por fim…pela força… pelo homicídio, pela perseguição.

            Na Bolívia está-se a passar a mesma coisa. Depois de Morales ter ganho as eleições com 53% dos votos, as seitas do mal não descansaram enquanto não se realizasse um referendo para correr com o presidente. Saindo-lhes o tiro pela culatra, com a vitória de Morales do referendo revogatório realizado em Agosto último com 67% dos votos, logo iniciaram as provocações, as desestabilizações e os separatismos, sob a orientação da CIA, da oligarquia boliviana e de Goldberg, o embaixador dos EUA, especialista nestas matérias. Porquê? Por causa da nacionalização dos hidrocarbonetos. Antes o povo ficava com 18% das receitas e 82% era levado para as grandes empresas. Agora é ao contrário, 82% para o povo e o remanescente para as empresas. O investimento em programas sociais dos recursos desta renda nacionalizada representou uma revolução social no país. No horizonte está ainda o projecto da reforma agrária e o referendo para aprovação da nova constituição, consolidando as mudanças em curso. São estas coisas que doem ao imperialismo e aos grandes interesses bolivianos. Daí a urgência golpista e a ferocidade das classes dominantes para salvar a concentração e apropriação capitalistas. Mas a América latina agiganta-se passo a passo, dia após dia. A solidariedade não faltou. Nicarágua, Dominica, Venezuela, Cuba, Brasil, Chile, Paraguai, Equador, Peru, Uruguai, Honduras e Argentina soltaram o grito anti-imperialista, de afirmação de soberania e do projecto progressista de libertação.

            O gigante capitalista vai caindo. Este modelo capitalista ruiu. O capitalismo é fonte de mais e maiores assimetrias sociais, nascente de miséria, de fome e não fez a humanidade feliz. E mesmo assim, repleto de ganância e egoísmo, cai redondo. Bush viu-se obrigado a "nacionalizar" a "AIG". Bush agora quer comprar por 700 mil milhões de dólares, cerca de 480 mil milhões de euros, as dívidas das grandes entidades financeiras, para as salvar da falência. Pretende utilizar os recursos públicos para cobrir as escandalosas perdas financeiras a que a especulação desenfreada conduziu o sistema. Quer salvar um sistema putrefacto e torpe com o dinheiro público dos contribuintes. Em palavras directas, quer retirar ainda mais aos pobres para dar aos ricos. Onde está então o famoso e tão propalado mercado que comanda a economia? É a derrocada completa e o desastre capitalista.

            Mas a sul temos a América Latina que se engrandece, que conquista. Que encurta o terreno entre ricos e pobres e assim, como refere o poeta, «… quando nos julgarem bem seguros/cercados de bastões e fortalezas/hão-de ruir em estrondo os altos muros/e chegará o dia das surpresas.»

                                                Atanagildo Lobo