Ano 2008
…e chegará o dia das surpresas.
Nos últimos dias e semanas vamos sendo assolados por notícias de capital relevância, quase sempre transmitidas de forma facciosa, intencionalmente escamoteando a verdade dos factos. Não fossem os grandes meios de comunicação o que são, meros instrumentos de classe da luta de classes no século XXI, por muito que Sócrates desminta. Mas a Sócrates ainda lhe falta muito, ou tudo, para chegar aos pés do outro, do verdadeiro Sócrates, o velhinho, o filósofo condenado a beber cicuta e que assim morreu em 399 antes de Cristo. Daqui a pouco, talvez meio século, ou até muito menos, Sócrates será apenas este.

Na Bolívia está-se a passar a mesma coisa. Depois de Morales ter ganho as eleições com 53% dos votos, as seitas do mal não descansaram enquanto não se realizasse um referendo para correr com o presidente. Saindo-lhes o tiro pela culatra, com a vitória de Morales do referendo revogatório realizado em Agosto último com 67% dos votos, logo iniciaram as provocações, as desestabilizações e os separatismos, sob a orientação da CIA, da oligarquia boliviana e de Goldberg, o embaixador dos EUA, especialista nestas matérias. Porquê? Por causa da nacionalização dos hidrocarbonetos. Antes o povo ficava com 18% das receitas e 82% era levado para as grandes empresas. Agora é ao contrário, 82% para o povo e o remanescente para as empresas. O investimento em programas sociais dos recursos desta renda nacionalizada representou uma revolução social no país. No horizonte está ainda o projecto da reforma agrária e o referendo para aprovação da nova constituição, consolidando as mudanças em curso. São estas coisas que doem ao imperialismo e aos grandes interesses bolivianos. Daí a urgência golpista e a ferocidade das classes dominantes para salvar a concentração e apropriação capitalistas. Mas a América latina agiganta-se passo a passo, dia após dia. A solidariedade não faltou. Nicarágua, Dominica, Venezuela, Cuba, Brasil, Chile, Paraguai, Equador, Peru, Uruguai, Honduras e Argentina soltaram o grito anti-imperialista, de afirmação de soberania e do projecto progressista de libertação.
O gigante capitalista vai caindo. Este modelo capitalista ruiu. O capitalismo é fonte de mais e maiores assimetrias sociais, nascente de miséria, de fome e não fez a humanidade feliz. E mesmo assim, repleto de ganância e egoísmo, cai redondo. Bush viu-se obrigado a "nacionalizar" a "AIG". Bush agora quer comprar por 700 mil milhões de dólares, cerca de 480 mil milhões de euros, as dívidas das grandes entidades financeiras, para as salvar da falência. Pretende utilizar os recursos públicos para cobrir as escandalosas perdas financeiras a que a especulação desenfreada conduziu o sistema. Quer salvar um sistema putrefacto e torpe com o dinheiro público dos contribuintes. Em palavras directas, quer retirar ainda mais aos pobres para dar aos ricos. Onde está então o famoso e tão propalado mercado que comanda a economia? É a derrocada completa e o desastre capitalista.
Mas a sul temos a América Latina que se engrandece, que conquista. Que encurta o terreno entre ricos e pobres e assim, como refere o poeta, «… quando nos julgarem bem seguros/cercados de bastões e fortalezas/hão-de ruir em estrondo os altos muros/e chegará o dia das surpresas.»
Atanagildo Lobo



