António Queiros partiu da Trofa rumo á Argentina no inicio do mês de Outubro para rodar pela Américas. Uma viagem solitária para este trofense aventureiro que vai dando noticias atraves de um diário que vai escrevendo e que, o jornal O Ooticias da Trofa vai publicando durante muitos meses…quem sabe até anos…

"Na quinta-feira, dia 11, sempre comecei a rolar pela Argentina. Saí por volta do meio-dia porque demorei um pouco a arrumar a tralha toda que trago. O GPS também não estava a funcionar bem. Disseram-me que tinha sido pela actualização dos programas e mapas e que ao fim de uns minutos já funcionaria. E foi, senão seria mais complicado andar por aí.

Debaixo de uma chuva certinha, mas não muito forte, tive o meu baptismo nas estradas argentinas. Foram quilómetros de planícies verdejantes que a partir de certo ponto começaram a ser monótonas. Havia muitas zonas com pequenas lagoas e charcos onde nadavam patos e outras aquáticas.antonioqueiros.jpg

Na ligação de Junin para Merlo a chuva continuou por algum tempo. Numa das vezes que parei para meter gasolina reparei que o lubrificador da corrente de transmissão não está a funcionar. Tive de comprar uma lata de spray lubrificante se não às tantas fico sem corrente.

Ao fim de duzentos e poucos quilómetros a moto começou a falhar e eu pensei: será que vai avariar aqui no meio deste fim do mundo? Dava umas aceleradelas e o motor rodava mas não aguentava a rolar. Será que já quer a reserva? Não pode ser. Mas deixa ver. E até que era. Quando mais à frente atestei vi que o consumo tinha sido elevado. Tinha sido o vento lateral e frontal forte durante demasiados quilómetros. Tenho que ter cuidado com a autonomia, porque depois disto cheguei a fazer quase cem quilómetros sem ver uma bomba de gasolina.

Uma ocasião que parei para tirar umas fotos, não havia chuva, e me aproximei de uma lagoa fui logo atacado por bandos de mosquitos. Tive que me despachar. Ontem à noite vi na televisão que este ano há mais mosquitos e que até são maiores. Espero que não venham para o meu lado.

Em Merlo, Carpinteria, fiquei num parque de campismo onde se vai realizar o encontro das Transalp, o modelo da minha moto. Soube deste encontro em Buenos Aires e optei por começar por aqui . Por acaso até fui o primeiro a chegar e inscrever-me. Até agora, dois dias na estrada, só tenho encontrado gente simpática.

O encontro das Transalp juntou cerca de sessenta motociclistas. São todos muito alegres e simpáticos. Ao final da tarde juntei-me a um pequeno grupo e participei num "asado", como chamam por aqui ao que nós chamamos churrasco. Na Argentina é comum e muito normal que as pessoas se juntem para um "asado". É sempre uma pequena festa.

À noite houve música e uma sessão de anedotas. Algumas não conseguia entender porque falavam rápido e com um sotaque próprio deste país. As palavras que levam dois "LL" e que em Espanha se pronunciam como o nosso "LH" aqui pronunciam-se como "CH". Por exemplo: "llaves" aqui diz-se "chaves" e não "lhaves" como em Espanha. Disseram-me que cada país sul americano tem o seu sotaque próprio.

No domingo de manhã a minha moto caiu para o lado. Apesar de estar no descanso central, um dos pés enterrou-se na terra e pumba. Não estragou nada, apenas a protecção lateral entrou um pouco dentro. Mas vieram logo meia dúzia de "Transalperos" que fizeram a reparação necessária. Como sou o único estrangeiro, e logo de Portugal, têm uma atenção especial para mim.

Pelas dez da manhã um grupo foi dar uma volta pelas montanhas em redor, mas eu não fui porque disseram que havia uns pontos mais complicados e não quis arriscar a cair. À tarde, quando chegarem, está programado mais um "asado".

No final estava tudo na conversa quando alguém se lembrou de me perguntar se podia ver as malas da moto. Não há malas de alumínio na Argentina e por isso quando as montei juntou-se tudo à volta da minha moto a perguntar de que marca eram e quanto custaram e…

Fartaram-se de tirar fotos à moto e a mim, também com eles pelo meio. Parecíamos uns artistas ou grandes personalidades.

Pelas sete da tarde começou o sorteio de prémios entre os participantes. Como português e com uma Transalp aniversário fui contemplado com um saco de depósito, não por sorteio pois normalmente é muito raro sair-me alguma coisa nos sorteios. No final ficou combinado fazer um novo encontro em Mendonza em Abril do próximo ano. Quem sabe se eu poderei ir lá.

De domingo para segunda, dia 15, durante a noite esteve começou a chover certinho e forte. Segui em direcção a Alta Gracia, Cordoba, a caminho do Uruguai. Um dos motociclistas disse-me que podia dar uma pequena volta e que parasse em Alta Gracia, terra de Che Guevara. Assim fiz.

Atravessei uma zona montanhosa debaixo de chuva forte que só de longe a longe abrandava e a uma certa altitude até começou a nevar. Nem dava para tirar umas fotos.

Quando cheguei a Alta Gracia a chuva ainda continuava por isso decidi ficar mesmo aí. A meio da tarde o sol apareceu e a tarde esteve óptima.

Fui visitar a casa onde cresceu o Ernestito, como lhe chamam, pois a família veio para aqui por causa de ele sofrer de asma e os ares da montanha lhe fazerem bem. Foi com uma certa emoção que andei pela casa onde viveu e cresceu um dos ícones do século XX.

Vou continuar em direcção ao Uruguai".

Um abraço,

António Queiros

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