Vivemos – é pelo menos esse o meu entendimento – o momento mais delicado e desafiante da história da humanidade, desde o final da 2ª Guerra Mundial. Estamos a braços com uma pandemia galopante, que ceifa diariamente milhares de vidas, que colocou os hospitais de todo o mundo em estado de sítio e que está já a ter um violentíssimo impacto na economia global, com múltiplas ondas de choque que não poupam nem pouparão ninguém, em particular os mais desfavorecidos.

O que aí vem será dramático e empurrará milhões para a pobreza, abrindo caminho ao tumulto social e estendendo ainda mais a passadeira vermelha para o desfile da demagogia neofascista, que se diz defensora do povo, apesar de, no caso Chega, propor o desmantelamento do SNS e da Escola Pública, bem como a redução de impostos para as classes mais altas, em detrimento das mais desfavorecidas, que veriam a sua factura fiscal aumentar, caso o partido de André Ventura fosse poder. É isso que está plasmado no programa apresentado pelo partido às Legislativas do ano passado.

Se o cenário pandémico e pós-pandémico não fosse, por si só, uma enorme ameaça à sobrevivência dos sectores mais carenciados da população portuguesa, colocá-las à mercê da agenda da nova extrema-direita é a receita para o desastre e para a instabilidade social. E poucas coisas empurram tanto as massas para soluções populistas e potencialmente autoritárias como o despesismo injustificado, uma das práticas que alimenta a narrativa de um regime corrupto, feito de partidos e pessoas corruptas, que instrumentalizam a coisa pública em benefício próprio, algo que, infelizmente, em particular no caso do PS e do PSD, não está assim tão longe da realidade.

Vem isto a propósito de um dos mais recentes ajustes directos levados a cabo pelo executivo Sérgio Humberto, que decidiu adquirir 7 smartphones iPhone 11 de 256GB. E não, não é o valor que mais choca. É falta de sensibilidade social de decisores políticos que, durante uma crise sanitária, social e económica, com milhares de pessoas a passar dificuldades, algumas delas aqui, no concelho da Trofa, decidem comprar telemóveis topo de gama com o dinheiro dos impostos daqueles que os pagam nas suas taxas máximas, por decisão deste executivo, que rejeitou o alívio fiscal proposto pelos socialistas trofenses, prática que se verificou, por exemplo, no concelho vizinho de Famalicão, governado pelos mesmos partidos que governam a Trofa.

Tal situação, por si só, é reveladora de uma enorme falta de ética e de respeito pela gestão da coisa pública, pelos elevadíssimos impostos cobrados a todos os trofenses, e, claro, pelos próprios trofenses, que financiam esta vaidade injustificada, logo à partida porque autarca algum precisa de gastar um balúrdio num telefone de luxo para cumprir as suas funções, mais ainda quando a entidade financiadora é um concelho bastante endividado.

Contudo, a situação torna-se particularmente imoral e revoltante durante a era covid, quando inúmeros munícipes de Sérgio Humberto, que com os seus impostos lhe pagaram a conta dos gadgets topo de gama, não sabem como pagar a conta da luz e da água no próximo mês, porque ficaram sem emprego, viram o seu negócio fechar ou perderam abruptamente a sua fonte de rendimento, tendo agora que fazer apertadas contas à vida para chegar ao fim do próximo mês.

Foi este o contexto que Sérgio Humberto escolheu para apetrechar a elite política trofense de smartphones de luxo. Telemóveis cujo valor seria suficiente para pagar três ou quatro anos de contas da água a muitos trofenses que se encontram agora em situação aflitiva. E o pior é que já nada disto surpreende.